O mau presságio de um vulgar intervalo televisivo
Publicado por António Martins Neves 18 Junho 2007 em Portugal.
Correspondente Fernando,
a tua carta sobre as acácias que “dão” sacos de plástico fez-me recordar umas outras dessas árvores que vi no deserto marroquino há muitos anos, mas com uma pequena nuance: lá eram mesmo as acácias que aparentavam “dar” cabras, que as percorriam até ao mais fino dos ramos e se deliciavam com as suas folhas, presumo. Mas não são as artes de sobrevivência da natureza que me levaram a sentar para alinhar e dirigir-te mais mais estas linhas. O que me leva a escrever-te esta carta é…outra carta. Não uma missiva vulgar e particular, mas uma que o Presidente da República endereçou à RTP e fez (muita) questão que se soubesse.O assunto foi bastamente desenvolvido nos noticiários, mas não dei muito por comentários e, tanto a a atitude de Cavaco Silva como a resposta da RTP foram encaradas assim quase como uma espécie de tabú, que se noticiou mas não se comentou. Recordo-te o essencial da história: no Dia de Portugal, 10 de Junho, a televisão pública transmitiu mais uma vez a parada militar que assinalou a data, este ano realizada em Setúbal. O Chefe de Estado, o primeiro-ministro, muitos generais na tribuna, e horas e horas de desfile de magalas emproados, viaturas e toda a panóplia de um suposta máquina de guerra. O povo assistia, alguns até batiam palmas, e o “espectáculo” lá decorria com direito à transmissão directa quando a dita foi interrompida para fazer um intervalo. O que é que foram fazer, Fernando…No dia seguinte Cavaco Silva tornou público o seu descontentamento (pela internet), na página da Presidência, com o facto da cerimónia militar não ter sido transmitida na íntegra, porque a solenidade da data o exigia, porque a RTP tem obrigação de serviço público, mais isto e mais aquilo…
Da parte da televisão não se fez esperar a resposta, curta: o Presidente tinha razão e este domingo iriam retransmitir tudinho na íntegra. Ponto final e uma suposta polémica morta logo ali, à nascença. Fiquei pensativo, Fernando. Um intervalo numa transmissão daquela duração parece-me a coisa mais normal do mundo, mas isso sou eu. Mas o que achei despropositado foi a reacção de Aníbal Cavaco Silva e a facilidade com que os responsáveis da RTP anuíram à crítica, tipo come e cala. Pensava eu que de televisão sabiam os responsáveis que a dirigem e sobre a elevação dos valores nacionais se encarregava com o brio e a capacidade que conseguisse o Presidente. Mas não. Pelo teor da reacção de Cavaco Silva parecia quase que tinha havido uma afronta e os valores nacionais despejados num qualquer indigno terreiro poeirento por interromper a transmissão de um desfile militar.
E olha que não sei se lá para a RTP não terão pensado nisso ao virem a correr dizer que sim senhor, que o homem tinha toda a razão. Mas o intervalo não foi programado antecipadamente? Foi fortuito? O realizador estava entediado com tanta farda e quebrou a monotonia com um intervalo para evitar adormecimentos? Quero crer que não…E por isso me espanta que não tenha surgido uma justificação para o facto em vez de um relampante “tem toda a razão”.
A coisa até pode parecer desinteressante, mas deixa-me preocupado que tenha ficado aberto um precedente. Ou será um hábito instalado mas só se soube porque o Presidente achou que desta vez o povo devia saber? Estamos cansados de ouvir acusações sobre interferências políticas na estação pública para a qual todos nós contribuímos através da taxa. E isto que nome tem? Houve ali alguma afronta aos símbolos nacionais? A pátria viu o seu orgulho ferido? A independência de Portugal foi momentaneamente abalada por um intervalo televisivo? Não me parece, e duvido que alguém tenha contestado a interrupção. Mas, como se usa dizer agora lá para aqueles lados, “a coisa caiu mal em Belém”. E ficas avisado, Fernando. Agora, de cada vez que o desagrado entre pelos portões do Palácio, vai sair carta ou comunicado na volta. Vai ser um vê se te avias de polémicas e disputas, para fartar os jornalistas. Isso não me tira um segundo de sono, garanto-te. Já a reacção da RTP não me deixa nada descansado. Correram a agradar só porque é o Presidente da República ou “meteram os pés”? Temo que nunca saibamos isso. Ficamos seguros, isso sim, é que o Presidente da República contestou uma decisão da RTP e a televisão nem pestanejou a fazer-lhe a vontade. Isso é que já não me deixa nada descansado, Fernando.
Um livre abraço.
António Martins Neves



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