Contemplativo Fernando,
passam alguns minutos da meia-noite. Está escuro como breu e um céu estrelado, verdadeiramente com inúmeras estrelas. Silêncio absoluto. Apetece ficar ali a olhar para cima e a contemplar o universo que nos cobre como uma abóbada sem fim, fascinante como não se consegue ver nas cidades, devido ao excesso de luz que emanam e ofuscam as estrelas. O olhar desce e pára na água, completamente inerte. Estão ali reflectidas as mais brilhantes das estrelas do céu como nunca vira. A albufeira de Alqueva, o maior lago artificial da Europa, torna-se, numa noite assim, de Primavera antecipada, também no maior espelho do Velho Continente.Nem uma brisa agita a superfície. Só de quando em fez se ouve um chapinhar, algo que salta na água. Voz conhecedora explica que são carpas a dar saltos. Tudo o resto, é só alimento para o olhar. Aquelas luzes ali, a escassass centenas de metrossão da Aldeia da Luz, a nova, a reconstruída, para substituir a que ficou lá no fundo do lago; mais para Norte um clarão e uma construção antiga num alto identificam Mourão. Do outro lado do “mar” de água doce, também num cerro, um aglomerado de luzes revela a localização de Monsaraz. E de novo os olhos recaem na água e nas estrelas reflectidas. Não sou só eu, mas todos os presentes que confessam nunca ter vislumbrado um espectáculo assim.
Já deves ter percebido que este fim-de-semana os meus passos foram dados no mais profundo Alentejo e naquilo que ele mais tem de contraditório. A terra da secura, do calor, do inóspito, da solidão, passou a ser também terra de muita água, de cenários impensáveis há escassos anos, mas sempre com dimensões quase irreais. Parece uma terra fadada a ter tudo em grande, de bem e de mal.
Fui conhecer aquele enorme lago artificial, com mais de 80 quilómetros de extensão de uma forma bem mais agradável do que observá-lo das suas margens, com centenas e centenas de quilómetros. De um barco com arremedos de casa, a viajar, albufeira acima e abaixo. Uma sala ampla, quartos para todos, casas-de-banho, uma espécie de alpendre atrás, uma coberta onde se podia apanhar sol fazer churrascos ou só mesmo estender o olhar até onde nos apetecesse. O convite, extasiante confirmo agora, partiu de uns amigos, e foi uma prenda de aniversário da mulher para o marido. E fizemos a comemoração assim mesmo, umas vezes sulcando aquela superfície quase envidraçada a dez à hora, muitas outras parados, confeccionando refeições a bordo ou saindo para ver como ficou a Aldeia da Luz no novo ou apenas pelo prazer de conhecer um pequeno ilhéu. Na maior das simplicidades, cada pessoa aprende a navegar aquele “monstro” de 13 metros e se torna um capitão em meia-hora. Depois é só encher a alma com o que vai à volta.
É um banho de azul sem precisar tocar na água: o céu um pouco mais claro, depois a toda a volta uma cinta verde, que pode ter algumas oscilações com um cerro ou outro. São os campos verdes, em muitos tons, salpicados umas vezes por uma azinheira aqui e outra ali, noutras a nudez da terra é só encoberta pela erva e em muitas outras surgem cobertos vegetais e uns matais que lhe dão um tom mais fechado. Quando os olhos chegam á água encontram outro azul, mais escuro e quo pé fica mesmo acastanhado. De quando em vez vislumbra-se um ponto branco que a aproximação esclarece ser um monte. Depois há aldeia da Estrela, transformada numa península com a construção da represa: água a quase toda a volta, a molhar-lhe os pés, mas sem lhe dar importância. Aliás, do pouco que vi e ouvi retive a sensação de que as pessoas que viviam naquele Alentejo ressequido, que viam água quando se aproxaimavam o rio Guadiana, não se vão adaptar facilmente à ideia de que passaram a ter um autêntico mar à porta. Quem nasceu no sequeiro, sempre conviverá mal com enxurradas, Fernando. E se dúvidas houvesse sobre os benefícios do investimento quando os governantes decidiram avançar com a construção da barragem, elas estão ali sustentadas, naquela magnífico deserto de água, que nas noites calmas e negras será, seguramente, o maior espelho que se encontrará na Europa. Sem bruxas a pentearem-se à frente dele, claro.
Um deslumbrado abraço.
António Martins Neves


