O grau zero da política
Publicado por António Martins Neves 17 Abril 2008 em Portugal.
Distante Fernando,
sei que é um momento de muito pouca dignidade, mas é o que mais abunda e não se pode ignorar essa desalentosa realidade. Venho dar-te a conhecer a história do partido que quis enxovalhar uma jornalista por ela ter uma suposta relação amorosa com o primeiro-ministro. É tão só e apenas o maior partido da oposição, que já governou muitos e longos anos, e agora destacou três dos seus dirigentes para desferirem o ataque. Um deles, Rui Gomes da Silva, que já se batera pela saída do seu companheiro de partido de comentador da televisão TVI, investiu mesmo num fim-de-semana. O vice-presidente do PSD e ex-ministro convocou uma conferência de Imprensa para um sábado, como se o o país estivesse a afundar-se e o regime democrático em causa. Nada disso! Afinal era só porque uma jornalista tinha sido convidada por uma produtora a fazer a um programa sobre bairros sociais para passar na RTP2. A ferros lá disse que isso era porque a dita repórter, citando ele notícias que diz ter lido nos últimos anos, mantinha uma relação com o chefe do Governo.
Eu sabia, como tu e qualquer pessoa que dedique alguns minutos por dia à realidade política do país, que os partidos, principalmente os mais representativos, não podem atirar um pedra ao ar porque têm telhados de vidro ou a casa completamente destelhada. Rui Gomes da Silva, que já conquistou um lugar entre os candidatos principais ao afundanço do regime que os sustenta, é demasiado inábil para perceber isso e esqueceu-se que tem sentado a seu lado, na direcção do partido, também como vice-presidente, Fernando Seara (não sabias?), que é casado com uma jornalista da RTP que entrevista políticos quase todas as semanas no canal 1 da RTP e apresenta o telejornal aos fins-de-semana na mesma estação pública, em cujo canal 2 a outra jornalista incorre numa atitude “pornográfica” - diz ele - se fizer um programa sobre bairros sociais sem sequer estabelecer qualquer vínculo com a RTP.
Anadava eu a pensar nisto dos telhados de vidro e nas pedras que todos os dias o PSD atira ao ar, quando segunda-feira de manhã ouvi José Miguel Júdice, ex-bastonário da Ordem dos Advogados, de quem se falou ter aspirações políticas no interior do PSD. O homem que agora percorre a estrada em direcção ao PS disse na Antena 1 que Gomes da Silva estava confrontado com um problema interno do seu partido se levasse a sério o que estava a exigir, porque ao lado tem alguém com ligações públicas, notórias e muito mais consequentes, à luz dos parâmetros que avaliava. A coisa é baixa, mas para se perceber o raciocínio de algumas pessoas é preciso descer e pôr um pé no degrau inferior.
Isto tudo levantou uma confusão medonha, troca de insultos, o PSD mandou três destacados dirigentes (Agostinho Branquinho, Gomes da Silva e Ribau Esteves) vociferar contra Fernanda Câncio e a sua participação no programa por…ser jornalista, ter experiência televisiva e dominar o assunto que vai tratar na séria contratada pelo Canal 2- digo eu com base em factos conhecidos publicamente.
Claro que Judite de Sousa, a mulher daquele vice-presidente do PSD que preside à Câmara de Sintra, já veio demarcar-se das acusações dos companheiros do seu marido, dizendo terem tomado uma posição “inaceitável” e desarmando a triste argumentação de quem parece não encontrar problemas maiores no país do que uma questão que só sobrevive nas suas mentes…
E, coincidência das coincidências, nada dizem sobre o ex-ministro e homem-forte do aparelho do PS, Jorge Coelho, ter ido para administrador executivo da Mota-Engil, a maior construtora do país, com uma única alínea favorecedora no currículo: ter governando as Obras Públicas até ter caído a ponte de Entre-os Rios. Terá estudado à noite engenharia civil enquanto estava no Governo? E o PSD ignora este facto porquê? Isso já não o incomodará porque tem lá muitos ex-governantes com grandes empregos em companhias privadas para onde transitaram depois de gerirem essas áreas? Tudo coincidências, claro…Tal como também é o presidente do PSD não ter dito uma palavra sobre o assunto. Será por ter dúvidas de conseguir sobreviver ao atoleiro? Se sair de repente, já não é a primeira vez.
Estou à vontade para falar sobre todos eles, os desta altercação, porque não conheço pessoalmente nenhum. O único com quem falei pessoalmente foi mesmo o chefe do Governo, mas só quando foi deputado e ministro do Ambiente. Da jornalista, só leio o que escreve, e dos outros políticos do PSD oiço falar, nem sempre pelas melhores razões, como agora se confirma.
Deixa-te estar por aí enquanto puderes, Fernando! Não regresses a um país onde a inflacção sobe, o desemprego é uma chaga que não se consegue curar e a vida é cada mais um suplício de tão cara que está. Mas sobre isso o PSD parece não ter nada a dizer. As melhores armas de arremesso que tem é uma funda para atirar sobre uma jornalista por ir realizar um programa para uma produtora que o vai vender à RTP e por ter uma alegada relação com o primeiro-ministro. Politicamente é o desastre absoluto, e cavar a própria sepultura. Ou melhor: atirar um penedo para cima da própria casa cujo telhado se esqueceu de construir.
Um abraço com muito descrédito nesta gente.
António Martins Neves



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