Temperado Fernando,
está frio, muito frio. É normal, é Inverno. Inusitado é o folclore que as baixas temperaturas proporcionam. Como a miséria que grassa e dispara nesta terra sem horizontes. As centenas de pessoas que dormem na rua tornaram-se agora alvo de todos os “responsáveis” e motivo de abundantes “reportagens” por que têm tendas aquecidas, comida quente, “palavras de conforto”. Conformam-se, claro. Entre quase nada e alguma coisa não se colocam opções.
A rádio conta a história de uma mulher de quase 80 anos a viver ao relento com um sobrinho. O agregado a tentar esconder-se das estrelas. Problemas de violência lá no bairro, receio de voltar e…pimba, os dois embrulhados em cobertores e a descansar os ossos em cartões como nunca lhes ocorrera no pior pesadelo. E o que acontece? Uma reportagem na rádio, “responsáveis” assalariados do Estado, pagos para para evitar esta miséria que nos corrói, e a dizer que estão a acompanhar a situação…Quando o frio passar, acabam-se os directos nos noticiários, os “responsáveis” atentos “às situações”, mas o quadro de miséria permanece lá, ali à frente dos olhos. Nas avenidas novas e velhas, na Praça do Comércio, à porta do Ministério das Finanças que protege as costas aos grandes investidores e banqueiros mas é incapaz de dar uma “esmola” para garantir a decência a que todos os cidadãos têm direito. Aquelas coisas sem importância: uma casa simples, uma ou duas assoalhadas, uma retretezita, depois um emprego com que se consiga pagar a renda, aconchegar o estômago e andar de cabeça erguida, assim com a dignidade com que todos nascemos. Sem pedir nada de excepcional, só o essencial. Se der para o passe, ir dar um passeio pela cidade nas folgas, ver, só ver…Mas viver sem andar de braço estendido e a comer das esmolas que voluntários meritosos se encarregam de distribuir todas as noites. A normalidade, não te parece, Fernando? Pois não! Para a maioria, o pesadelo vai prolongar-se porque chegámos àquele ponto em que, além de não resolvermos as situações de penúria já existentes, somos incapazes de evitar que disparem. E se não é nestes barómetros que se mede a dimensão de um país, em quais será? Com estatísticas? Mas quais números é que convecem alguém quando se passa na rua e se vê? A irrealidade está ali ou no discurso? Há dois, três países? Ou apenas o arremedo de um confinado a desaparecer. Mantenho a esperança, mas não me peçam mais, porque a que me resta vai ter que ser gerida com muito rigor.

Um desalentado abraço.

António Martins Neves


4 Responses to “O frio que nos denuncia”

  1. 1 gina

    Os assalariados do estado devem usar o salario que ganham para acabar com os sem abrigo ou usam os meios que o estado, que somos todos nós, tem para resolver essas situações?
    quantos dos sem abrigo querem mesmo uma casa e uma vida normal e deviam ser ajudados a ter a vida que já viverem e por qualquer motivo a perderam e quantos rejeitam essas coisas da sociedade normal?
    quantos dos sem abrigo são casos de probemas mentais?
    a quantos dos sem abrigo devemos dar de mão beijada coisas que muita gente leva uma vida para conseguir’
    quantos dos sem abrigo tiveram uma vida bem melhor do que a nossa e não a souberam conservar?
    quantos dos sem abrigo meteram milhares de euros no corpo, com as drogas para conseguirem ser o cadaver ambulante que são hoje?
    são perguntas simples sem demagogia que devem ser respondidas antes de meter toda a gente no mesmo saco e que os srºs da comunicação com espirito de defender os coitadinhos deviam tratar.
    gina

  2. 2 António Martins Neves

    Os funcionários do Estado são pagos para resolver os problemas das pessoas. Se não têm os meios suficientes para o fazer, dizem-no publicamente, como é seu dever, e não devem ficar-se. Se não o fazem, a ideia que transparece é a de que fazem parte da “máquina”. Se os sem-abrigo desaparecerem, ficam sem emprego.

  3. 3 gina

    boa,,,bem pensado,,os funcionarios do estado e ja agora todos os empregados ou trabalhadores por conta de outrem que são pagos para resolver os problemas ou fazer as entidades para a qual trabalham, sejam publicas ou privadas, funcionarem e cumprirem o fim a que estão destinadas,,,,se não tiverem os meios suficientes devem dizer e não devem ficar.se, pois se não o fizerem a ideia que transparece é que fazem parte da maquina e podem ficar sem emprego.
    Concordo que esta seria uma das formas de fazer com que este pais acabasse com milhares de problemas incluindo os sem abrigo, os pobres, desempregados, reformados com pensões de miseria,drogados, deliquentes,pensões demasiado altas, centros de saude que não funcionam, crianças a nascer em maternidades espanholas, estudantes com telemovel nas aulas,transito e poluição nas grandes cidades e animais abandonados, etc etc etc

  4. 4 Guinevere

    A questão, queridos amigos, é que vivemos num país com horizontes… e muito curtos… e muito fechados… e muito pequenos… e cheios de umbigos.