O drama de umas mães

Memorado Fernando,
acontece-me quase sempre no final de Agosto. Gosto de vir para esta casa simples, que é dos meus. Calmaria completa, embora a estrada nacional fique a menos de 100 metros. Ninguém por baixo, ninguém por cima, raros carros na rua. Só que do outro lado do asfalto que liga Lisboa ao Algarve há uma herdade com um abastado rebanho de vacas. E é sempre em Agosto que oiço o que não quero, pois sempre por esta altura tiram os vitelos às mães. Sabes o que isso significa?
Não é um mugido normal de uma vaca. É um grito de desespero de dezenas delas. Algo que lhes sai daquele corpanzil robusto e bem nutrido. São urros curtos de dor, chamando por quem não vai aparecer. Uma noite, outra noite, todas em branco, para elas. A mim, basta fechar as janelas e deixar-me arrasar pelo cansaço do corpo para me abstrair da dor bovina. De dia não se dá por nada. Não sei quantos dias demoram a esquecer, mas uma manada de vacas a quem separam dos vitelos, quando eles já estão capazes de se alimentar pelos próprios meios e seguir o caminho que os levará a novilhos fortes e cheios de bifes, é um atroz espectáculo que a natureza ainda nos reserva. Aquele coro desafinado, desencontrado, não deixa ninguém indiferente.
Falei no assunto em família e à mesa contaram-me uma história vivida pelo próprio narrador que ilustra muito bem toda esta conversa.
Finais dos anos 50 do século passado. Princípio de Outubro. Em Castro Verde realiza-se mais uma edição da maior feira do Sul do país. Tudo o que se vende e se compra está ali. Gado, muito gado. Roupa, calçado, toneladas de amêndoas e figos. Galinhas, patos, furões e o que não se consegue imaginar.
Um grupo de operários a trabalhar no concelho está alojado em Entradas, a uma dezena de quilómetros. Claro que não perdem a feira nem por nada. Deslocam-se até lá de autocarro, mas a farra é tão boa que deixam partir o último transporte de regresso. A solução é percorrer as duas léguas a pé, já noite cerrada. Ainda não eram percorridos uns dois quilómetros, começa-se a ouvir um ruído forte, distante, imperceptível. Vai-se aproximando e dá para entender que se trata de bovinos a urrarem, não a mugirem como seria normal. Cada vez se aproxima mais e começa a ficar perceptível: é uma cavalgada louca pela estrada escura como breu. A única luminosidade são as estrelas. Aquela massa que começa a fazer soar as unhas no asfalto e os berros cada vez mais nítidos faz aumentar o temor entre o grupo. O que vem lá não é brincadeira e cada um começa a procurar a salvação. As árvores são poucas e esguias: eucaliptos. Escondem-se onde podem. Alguns optam por um aqueduto e enfiam-se nas manilhas. Como um terramoto, dezenas de vacas passam a galope em direcção a Castro Verde. Faz-se luz nos caminhantes. Os vitelos tinham sido separados das mães na feira e vendidos. Levaram-nas para casa, mas elas rebentaram com o curral e foram à procura da descendência. Não sei o que aconteceu na vila de Castro Verde, que a manada teve que atravessar noite dentro em direcção ao recinto da feira onde lhes haviam “raptado” os filhos. Mas aquele autêntico cilindro esmagava tudo o que lhe aparecesse pela frente. Coisa de mães…

Um abraço e continuação de boas férias.
António Martins Neves


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