Amigo Fernando,

Por cá, se vai andando. Agora com menos frio, mais sol, mas com falta de moreia frita. E por tal acepipe, calculo que não tenhas conhecido a história do cozinheiro alemão. Saberia ele fritá-las estaladiças, bem no ponto? Queria trabalhar onde as há por aqui, nas rochas da costa atlântica algarvia. Mas não conseguiu.

A história de Frank-Peter Marcischewski correu na imprensa daqui e foi até primeira-página, com foto dos amigos. Chocou-me. Podia ter sido uma história feliz, mas acabou negra, da cor da morte.O cozinheiro alemão decidiu fixar-se em Portugal há oito anos. Optou pela zona algarvia de Vila do Bispo. Terra pacata, quase nada em comum com o resto da amálgama de prédios e betão que se arrasta mais para Oriente, até Vila Real de Santo António.

Com 54 anos, solteiro, decidiu, com um sócio, abrir um restaurante na aldeia de Hortas do Tabual, povoação a meio caminho entre Lagos e Sagres.

Dizem as notícias que viveu um calvário de longos seis anos de burocracias e entraves até que, parecia, ia finalmente concretizar o velho sonho de ter o seu restaurante. Marcou data para a inauguração , fez a lista de convidados.

Na véspera da inauguração levantou-se cedo para ir buscar a licença de funcionamento do estabelecimento. Queria ainda fazer as últimas compras para a festa, que queria de arromba.

Mas não seria ainda dessa vez. Na licença constava a apenas o nome do seu sócio e amigo de infância, também alemão.A partir daí pouco se sabe. Terá entrado no carro, percorreu os 20 quilómetros que o separavam da Fortaleza de Sagres, onde diziam que o Infante D. Henrique ficava a contemplar o oceano. Comprou o bilhete que dá acesso ao promontório e atirou-se lá das alturas para o mar. No carro ficaram 300 euros com que pretendia fazer as compras para festejar o sonho da sua vida. Como não conseguiu, optou pela morte. Fiquei chocado.

Lembrei-me do Simplex, esse programa com o qual o Governo pretende desburocratizar as relações entre os cidadãos e a administração pública.
Levar seis anos para abrir um restaurante e…não conseguir. Se calhar um homem aguenta quase tudo, se calhar Frank-Peter já não suportava mais… Dizem, os que o conheciam, e eram muitos, gente humilde da aldeia também, que andava felicíssimo. Se calhar não estava preparado para outro não e…desistiu. Fiquei chocado.

Vem um homem da Alemanha viver para o meio de nós, abrir um restaurante numa aldeia onde nunca ninguém ousara fazê-lo, dar emprego a três pessoas, criar riqueza, ser feliz, e não consegue, aparentemente por causa de uns papéis, uns nomes. Fiquei chocado.
Num terra onde se “agilizam” – como está na moda dizer – planos directores de municípios para conseguir construir mega-projectos turísticos que o Estado considera de “interesse público”, um homem propõe-se ter o seu restaurante, perde seis anos a batalhar por ele, sem sucesso, e, se calhar, cansa-se. Fiquei chocado.

Cumprimentos

António Martins Neves