Produtor florestal Fernando,
prepara-te para um dia voltares a Portugal e encontrares o país semi-careca. Como se já não bastassem os incêndios, um pequeno insecto está a levar a sério a tarefa de acabar com os pinheiros-bravos, que ocupam cerca de um terço da floresta nacional. O pequeno animal transporta consigo uns seres insignificantes especialistas em secar os pinheiros. Para o travar, a solução conhecida é cortar as árvores para evitar a propagação da doença. A continuarem a falhar as medidas de contenção da praga, lá se vai mais oito por cento da nossa floresta. Quem foi que falou em deserto?
Chegou há nove anos, terá vindo por mar e desembarcou no Porto de Setúbal. O nemátodo do pinheiro-bravo surgiu pela primeira vez na região de Setúbal, em 1999, e terá vindo num carregamento de madeira proveniente do Oriente. Como se trata de uma espécie inexistente por cá, não tem controladores naturais nem ninguém que a inclua na sua dieta, desatou a fazer o que sabe: atacar os pinheiros, que morrem inevitavelmente.
A primeira tentativa de travar o insecto teve como consequência o abate de 130 mil hectares de pinhais do distrito de Setúbal. Pensavam as autoridades florestais que isso mataria o bicho, que não consegue voar mais que três quilómetros. Enganaram-se e a doença nuca parou verdadeiramente de evoluir. Agora, o Governo, a quem caberia ter tomado medidas para enfrentar um problema que afecta milhares de produtores de pinheiros, e a Comissão Europeia já vieram declarar todo o pinhal português em risco. E ameaça ir além fronteiras e entrar por Espanha dentro. De braço dado com os incêndios, o pequeno nemátodo parece apostado em dar um forte contributo para o deserto se implantar no nosso país. Se os governantes não tomaram medidas que lhe travassem o passo durante dez anos, nada nos garante que o consigam fazer agora. Em risco estão os 710 mil hectares de pinhal-bravo do país, os tais oito por cento de que te falava, área só ultrapassada pela espécie ainda dominante em Portugal: o sobreiro, com 737 mil hectares. Como também esta espécie tem vindo a ser afectada, aumentando a olhos vistos o número de árvores mortas sem que ninguém consiga explicar qual a verdadeira causa, o verde está ameaçado cá por estas bandas. Queres um conselho? Começa a tirar umas notas e aprendendo aí como se vive num país quase deserto. Cá, vai dar-te um jeitão! Já agora manda também guardar uns caneiros de cortiça dos teus para mostrares às futuras gerações quando lhe recordares que vivem num país que perdeu a maior riqueza natural que teve e da qual foi o primeiro produtor a nível mundial.
Um desertificado abraço.
António Martins Neves

