O bolo mal repartido

Justo Fernando,
é bom ver um amigo assim repleto de felicidade com o bem que a Lourença e outras mulheres e homens deste mundo fazem todos os dias, em todas as latitudes e países, em prol dos outros sem exigir nada em troca. Mas eu sou dos que gostaria que eles dirigissem essa energia para outros projectos mais arrojados, porque isso significava que não havia meninos sem alguém para lhe aconchegar o lençol, contar uma história ou dar um beijo ao adormecer. E podia não haver, Fernando.

Bastava dividir melhor a riqueza que existe e que é um bolo: se alguém come uma grande fatia, vários nem o vão saborear…
Antes de mais, que fique claro: concordo em absoluto com a oferta que o Governo português fez à Lourença. Aqui como aí, tem que se acabar com essas situações. e minorar o sofrimento de quem menos rresponsável é por ele. E deve-se começar por algum lado, mas ir até ao fim. Não ficar por estas meias tintas, atamancos, remendos. O problema, Fernando, é, repito, uma questão de má distribuição de riqueza. E quando as pessoas se contentarem em beber vinho tinto em vez de champanhe e em ter carros de empresa que sirvam apenas para se deslocar e não se alavanquem logo para descapotáveis de passeio, as Lourenças deste mundo vão ter menos trabalho e adormecer todos os dias mais felizes.
Dou-te um exemplo revelado hoje aqui na imprensa do que é gerir mal a riqueza num país pobre. O Tribunal de Contas encontrou 700 milhões de euros de dinheiros públicos aplicados no ano passado sem cumprirem as regras claras que qualquer eleito ou nomeado para servir o Estado conhece. Muita dessa verba foi parar onde não devia, retida, ganha por formas desonestas, muito provavelmente, mas sobre isso os tribunais apurarão.
Agora te garanto que se esses políticos eleitos – autarcas, ministros e outros governantes – gerissem os bens públicos que lhes são entregues como o fazem nas suas casas, com o seu vencimento, outro galo cantaria. Se gastarem mal, sabem que vão ser expulsos de casa por não pagarem a renda, ficarão às escuras se a conta da luz ficar por saldar, andarão a pé se ignorarem a prestação do carro.
O que está “instituído” – e é por isso que tens o Zezinho aí a tocar-te à campaínha frequentemente e ficas emocionado com a Lourença – é que quando os decisores públicos se apanham com a faca na mão esquecem todos os princípios e cortam o bolo de acordo com os seus interesses pessoais, partidários, amigáveis…e nunca a favor da comunidade que lhes paga o ordenado para os servir. E depois não lhes acontece nada. Nós dois, por exemplo, se não honrarmos os nossos compromissos, pagamos caro por isso. Eles não! Ficam impunes…e quando a impunidade se instala assim, como aqui, não há Lourenças que nos valham. É triste, duro, banal até dizer isto, mas é a realidade…basta olhar para as auto-estradas e parece que estamos num país rico, a avaliar pelas máquinas que voam por essas vias de portagens das arábias. Se ali há muito, escasseia onde mais falta faz, Fernando.
Cumprimentos à Lourença, que nunca se canse, e diz-lhe que tem aqui um admirador. Mas se houvesse justiça, ela dirigiria essa força natural que acumula para fazer o mundo crescer e avançar e não só para diminuir o sofrimento alheio.

Um forte mas um pouco descrente abraço.

António Martins Neves


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