Descansado Fernando,
o exclusivo das histórias insólitas não consegue ser teu. E se são reveladores esses retratos que envias daí. Mas hoje trago-te um para a troca, e acho que vais ter que te esforçar para arranjares um cromo equivalente a este para a nossa colecção: o departamento da Polícia Judiciária portuguesa que combate a maior bandidagem que por cá existe foi assaltado por um toxicodependente solitário, que entrou lá de noite por escalonamento. Uma ocorrência com contornos inacreditáveis, anunciado em comunicado oficial. O resto do folhetim são as divergências nos relatos da Imprensa, algo que só encaixa no surrealismo em que o jornalismo daqui se está a afundar.
A Direcção Central de Combate ao Banditismo da Judiciária, designada de uma forma íntima pelos jornalistas “especialistas” muitas vezes apenas por DCCB aparenta ser um dos locais mais protegidos deste país. Tem uns blocos de cimento à frente que impedem a investida de viaturas, o acesso ao estacionamento inferior tem barras de ferro que parecem intransponíveis, na frontaria abundam as grades, tudo parece um bunker. Pela frente…pela rectaguarda um toxicodependente entrou lá sem grandes dificuldades numa noite destas. Casa de ferreiro, esteio de pau, no melhor pano cai a nódoa. Sobram os ditados para ilustrar um episódio destes. Inquéritos foram instaurados, o homem ficou em prisão preventiva. Da polícia “atacada” é tudo o que se sabe. Nem mais um pormenor, disseram oficialmente.
Agora, vejamos os jornais do dia seguinte. O Público, que não disponibiliza o texto na Internet, diz que o homem não fazia ideia do local onde entrou, citando uma fonte da polícia. Depois relata que ele se assustou quando chegaram as mulheres da limpeza e desatou a correr pelos corredores. Apanharam-no na rua cheio de suores e de mãos vazias. Terá conseguido apenas conseguido matar a fome com pêssegos que encontrara na secretária de um inspector da polícia.
Sobre a mesma “ocorrência”, o Correio da Manhã confirma que o assaltante não fazia ideia de que aquele edifício era a sede dos polícias que combatem a criminalidade mais violenta em Portugal e terá furtado três computadores portáteis e duas pistolas. Neste caso, o texto nunca cita qualquer fonte, sendo da autoria de dois jornalistas, um dos quais da direcção do diário.
O Jornal de Notícias cita uma fonte da PJ e diz que alguns dos objectos roubados, sem dizer quais, foram detectados quando já estavam à venda da Feira da Ladra. Tu lês isto em três dos principais diários nacionais e acreditas em quê, Fernando? Deve ser no mesmo do que eu: fazer jornalismo assim é fácil. Ao que parece, trata-se da reprodução de fontes anónimas que dizem o que lhes convêm com a cobertura de jornalistas. Isto para ser positivo. Porque se algum dos escribas em causa foi, porventura, confrontado com as regras básicas do jornalismo sabe que a identificação das fontes é imprescindível para credibibilzar as notícias. Contar “histórias” assim é fácil. Basta ter onde as escrever. E ter quem acredite nelas. Mas em quais? Depois queixam-se que os jornais não vendem…E os papas da deontologia, que falam apenas nos momentos que lhes convêm, ficam mudos nestas alturas. Porque será, Fernando? Será que o bandido sou eu?
Um deontológico abraço.
António Martins Neves

