

Racional Fernando,
histórias com bichos é o que te trago hoje. Não somos só nós que lhes entramos pela vida, eles também nos invadem o quotidiano, umas vezes inofensivamente, outras nem tanto. Chegam a ser úteis nalgumas alturas, aterrorizam-nos ingenuamente noutras poucas. São animais com que temos que conviver e nem vale a pena pensar em cortar a relação porque eles não estão interessados nisso.
- Manhã de domingo, Bairro de Campanhã, no Porto. Pouca gente na rua. Há um movimento anormal de gaivotas naquele local da cidade. Andam agitadas, com aquele ar faminto de sempre, de quem não há peixe que as sacie. Uma poisa no meio da rua. Estranho. Reparo melhor e a ave está no centro de um triângulo imaginário. Passam carros à direita à esquerda e por trás. Mas onde ela está, não. Se o fizessem colidiam uns com os outros ou contra as paredes das casas. E o pássaro parece plenamente consciente disso. Não se assusta. Domina aquela situação de uma forma que só não é perfeita porque denota algum nervosismo. Mas o que a deixa intranquila não são os carros que passam a dois ou três passos de distância. O motivo da agitação que revela está em cima do passeio. Dois alguidares com sardinhas pequenas vigiados pelas respectivas peixeiras. São aquelas vasilhas reluzentes que levam a ave a procurar a segurança no meio do trânsito, para onde não vão nem carros nem pessoas e a deixam a meia dúzia de metros do alvo. Não vi, mas não me espantaria nada que se uma das mulheres virasse a cabeça uns instantes o alguidar seria alvo de um ataque picado e ficaria sem uma sardinha, pelo menos. As outras gaivotas que se agitam são menos ousadas. Não desgrudam das sardinhas, mas fazem-no pousadas em candeeiros da rua, beirais de telhados. De lá de cima até aos alguidares o voo acaba por ser mais demorado e exige mais perícia do que estar ao nível do alvo e bastar um bater de asas para anular os poucos metros de rua que separam o pássaro das sardinhas. Tirei uma fotografia que te mostro ao lado.
- “Vai ver o rio, porque a água lava tudo”. Vindo de quem veio, o conselho foi cumprido de imediato. Estava uma bela tarde de Verão, sem muito calor nem muita gente perto do Tejo. Levo leitura e entro numa esplanada semi-fechada, com cobertura, vidros à volta. Entra o cheiro mas não se sente o vento, abunda a luz mas o sol fica lá fora. O olhar dirigido para a leitura pressente algo a mexer-se no chão, junto aos meus pés. Terei visto mal? Foi uma daquelas sugestões falsas que nos podem ocorrer? Estarei com visões? Não…Mal precisei desviar o olhar para a direita para perceber o que vera mexer junto aos meus sapatos: um pardal. Vai saltitando por ali e olha-me quando me mexo lentamente para tirar do bolso a máquina fotográfica. Estancamos os dois. Ele desconfiado, eu a pedir-lhe que me deixe registar o momento. Recusou e voou por cima das cabeças das poucas pessoas na esplanada e pousa ao fundo, na divisória que separa o espaço da rua. Esqueço o pássaro e regresso aos jornais ou ao livro, não me recordo. Não teriam passado cinco minutos e…ops! Algo atravessa o ar e pisa em cima da minha mesa, na outra ponta. O mesmo pardal. Um macho com penas de quem já criou muitas ninhadas e sabe que por ali costuma haver migalhas. Fica quieto, dá um salto e poisa nas costas da cadeira que está à minha frente, alsa as penas do rabo e pimba! Uma cagadela branca fica a escorrer por ali abaixo à espera que cliente distraído a vá limpar com as costas. E voa de novo. Atrevido! Fotografias nem pensar…Só quando regressou à terceira vez é que lá me deixou fazer uns disparos tremidos e com pouca luz. Mesmo assim, deixo-te ao lado o retrato possível daquele momento.
- A manhã está serena, e até ali naquele local ventoso nem as folhas mexem. Sabe sempre ver-se o Atlântico dali de cima. Até há umas mesas com vista sobre o oceano. Outras estão encobertas pela vegetação, que não deixa ver o azul. Entre o que está em cima da mesa encontra-se um sumo de laranja natural. Ainda só tinha ocorrido o gole de estreia quando se aproxima a grande velocidade uma vespa, rodopia uma ou duas vezes, à lai de reconhecimento, certifica-se que tem ali um alvo agradável e poisa no bordo do como. Gritos, sustos, aquela reacção comum que muitos humanos têm a insectos minúsculo se pouco mais do que inofensivos. “Uma abelha, uma abelha”. A vespa não se ofende por a confundirem com as suas parentes que nos dão mel nem se importa nada com a reacção ruidosa que causou. Vira a cabeça para dentro do copo, rabo alçado e ali vai ela, num rápido mergulho fica a barafustar à tona do sumo de laranja. As asas molhadas impedem-na de voar e deixam-na quase indefesa. Tudo o que conseguiria fazer era dar uma ferroada se alguém se pusesse a jeito. Mas não. Agarra-se à ponta de um guardanapo que lhe deitam traiçoeiramente e desconhece que está ser levada para a morte. Uma sacudidela atira-a para o chão e um pé rápido termina a história do insecto atrevido.
- Julgo que eram uns besugos grelhados que estavam a deixar deliciado a horas tardias para almoçar. O restaurante singelo estava quase vazio como gosto. Pressinto outra vez pelo canto do olho que algo de menos normal anda ali pelo chão. Ergui a cabeça e lá a vi: uma pomba a limpar o chão do estabelecimento em altura de arrumações. Bica quase tudo o que distingue no chão claro. Nada lhe distrai o olhar, no que parece ser uma corrida contra a tempo. Até que algo lhe faz disparar o alarme e de um salto já está voar por cima das cabeças em direcção à porta. Passa à tangente, guina como aqueles aviões das corridas aéreas, para acertar na saída. Escasso minutos depois regressa a pé. Continua a tarefa de recolher do chão tudo o que possa ingerir. “Que bela empregada de limpeza aqui tem! A seco e sem levantar pó…”. A patroa sorri mas não arrisca qualquer resposta. Animais em restaurantes têm que entrar já mortos.
Um abraço voador
António Martins Neves


Os bichos, à semelhança das pessoas, são inofensivos ou letais. Tudo depende de nós, da nossa abordagem ou do modo como nos expomos a eles. As abelhas. vespas e afins, por exemplo, podem ser extremamente perigosas. Tal como algumas pessoas que, à priori, nos parecem inofensivas. Os efeitos das picadas das abelhas variam de intensidade, na dependência do número de ferroadas e da sensibilidade do indivíduo ao veneno. Normalmente a sua picada provoca apenas dor e inchaço, mas nas pessoas alérgicas, como é o meu caso, pode desencadear o choque anafilático, com parada cardíaca e morte. Como vês, há ferroadas que matam.Como na vida.
Carla