Ninguém o vai calar

http://avenidadaliberdade.org/Politizado Fernando,
quero dar-te conta de um acontecimento político que ocorreu em Lisboa na terça-feira à noite e que me parece ir marcar o futuro próximo. Ficou conhecido como o comício das esquerdas e reuniu gente deste quadrante político descontente com a governação socialista do primeiro-ministro, José Sócrates, com excepção do PCP, que não alinhou, como sucede sempre que não controla as iniciativas públicas. O deputado socialista Manuel Alegre, segundo classificado na corrida à Presidência da República ganha por Aníbal Cavaco Silva, foi a estrela da noite. E deve ter provocado pesadelos a muitos adversários políticos, a começar no seu próprio partido e alargando-se ali para as bandas de Belém, onde o chefe de Estado deve ter percebido que a sua reeleição está longe das habituais favas contadas como sucedeu com todos os seus antecessores democraticamente eleitos.
Alegre juntou-se ao Bloco de Esquerda, aos renovadores comunistas e aos descontentes do partido do Governo para dizer o que lhe vai na alma, fazendo-o mais até com o fato de poeta. O registo foi o de que a mim ninguém me cala, estou onde acho que devo estar e sou livre de dizer o que penso. E zurziu no Governo do seu próprio partido, o que não sendo uma postura nova, nunca tinha sido realizada com tamanha veemência, que me recorde.
Ficou subjacente que está disposto a erguer o milhão de votos que obteve nas presidenciais e voltar a capitalizar junto desses eleitores. Um ano antes de novas legislativas, com o Governo a sofrer um desgaste acelerado e em sério risco de perder a maioria absoluta, o deputado socialista veio alertar, de forma indirecta claro, que para poder contar com o seu peso político José Sócrates tem de guinar à esquerda antes de chegar às urnas. E não pode dizer que não foi avisado a tempo. Presume-se que o primeiro-ministro não esteja propriamente indiferente à possibilidade de perder a maioria absoluta no Parlamento que lhe tem permitido governar a gosto. Com o PSD a tentar reagrupar as tropas para um assalto ao poder e a esquerda “liderada” por Alegre a atacar pelo outro flanco, Sócrates não vai viver dias fáceis para se aguentar sem perder a face nem…a maioria absoluta. As reacções imediatas que apareceram do PS foram de vitimização - o movimento de esquerda representado nas pessoas do comício no Teatro da Trindade para uma notória encenação mediática, mas não menos significativa, estão a atacar um Governo socialista como uma criança rebelde a dar caneladas no irmão mais velho por não lhe conseguir chegar mais alto. Claro foi o esforço para não beliscar Manuel Alegre, optando antes os dirigentes do PS encarregues de marchar contra as esquerdas do Trindade por atacar o Bloco de Esquerda e o ausente PCP, para onde sabem que podem saltar os socialistas descontentes quando forem chamados a votar e avaliar através das urnas o desempenho do Governo que ajudaram a eleger. Acho que a pré-campanha para eleger o próximo Parlamento começou terça-feira.
Embora tenha dito que não tem nenhum agenda escondida e que estava ali a falar mais de peito aberto do que com segundas intenções, Manuel Alegre acabou também por dar um sinal inquietante para o seu anterior adversário, que o venceu na corrida presidencial. Se for conseguida a tal união da esquerda que defendeu, e de que será o principal guardião, poderá vir a tornar-se uma dor de cabeça para Cavaco Silva, ameaçando impedir-lhe a reeleição. Basta que reúna os votos dos cinco candidatos de esquerda nas últimas presidenciais e faltar-lhe-ão escassos 60 mil votos para levar a melhor sobre o actual Presidente da República, eleito com os votos da direita. Também Cavaco Silva não tem muita manobra para se chegar à esquerda e contabilizar os descontentes com o Governo. A imagem que tem passado é a de andar de braço dado com Sócrates e não poderá - até porque o passado que carrega o impossibilita - de atraiçoar a direita que o elegeu.
Posto isto, quero que fiques descansado que não vou passar a massacrar-te com análises políticas para as quais não estou credenciado nem capacitado. Mas há evidências que gosto de deixar vincadas. E, ou muito me engano, ou vamos ter várias revoluções políticas no prazo de dois anos. À esquerda do PS já começaram a balizar o terreno da batalha e sabes que quem escolhe o campo da refrega leva vantagem. Ainda por cima falam num movimento e remetem para segundo plano os partidos de que as pessoas estão nitidamente cansadas e afastadas.
E pronto, só queria evitar que dissesses que não sabias. Daqui por uma ano voltamos a falar disto tudo e aferiremos este arrazoado.

Um atento abraço.
António Martins Neves


1 Response to “Ninguém o vai calar”

  1. 1 Luis FS Costa

    Parece que agora a coisa vai!!!!

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