Confessor Fernando,
ainda é um segredo mas vai deixar de o ser brevemente: Portugal vai bater mais um recorde e eu vou anunciar-te em primeira mão. Pensei sobre este bem guardado segredo, mas não resisti: é uma questão de dias e decidi antecipar-me e contar-te porque iremos andar nas bocas do mundo. O nosso país está no trampolim para dar o salto e ser a nação do mundo com mais nascimentos por quilómetro de estrada. Isso mesmo, Fernando. Duvido que noutras latitudes, onde existam estradas como cá, nasçam tantos bebés nas bermas.
A grande questão coloca-se entre o fortuito e o determinado, e eu acredito mais que é ao efeito da segunda hipótese que estamos a assistir. O ministro da Saúde mandou fechar maternidades e antecipou-se aos países europeus que estão a aconselhar, e a dar condições, para as mulheres terem os filhos em casa. Cá, vai ser algo bem mais arrojado: vão passar a tê-los nas ambulâncias, paradas à beira da estrada, no meio do campo, com ar puro, em contraponto àqueles ambientes acépticos fechados e doentios das maternidades.
Fernando, se as equipas das maternidades deixam de reunir condições  para fazer partos por não assistirem a vinda ao mundo de um determinado número de crianças por ano, a questão ultrapassa-se facilmente, deve ter pensado o ministro Correia de Campos.
Se bem pensou, melhor o fez, e agora estamos hilariantes com o sucesso que tem sido o nascimento de crianças na beira da estrada porque as mães não aguentam chegar às maternidades que o Governo mantém abertas. Em vez de médicos obstetras e enfermeiras parteiras, estão quase todos os dias a nascer nas ambulâncias nacionais crianças cujos partos são assistidos por distintos bombeiros e garbosos maqueiros. E não te escondo o sucesso: belos bebés, a maioria com quase quatro quilos de peso, que vêm ao mundo sem anestesias epidorais nem cesarianas, tudo ao natural. E com direito a notícia de jornal, coisa injustificada quando alguém se junta a nós a partir de uma maternidade. O hábito veio para ficar, Portugal está imbatível e mostrará ao mundo que as estradas não servem só para fazer corridas de velocidade. Têm outras valências que vão fazer cair de pasmo qualquer gestor: reúnem condições para mulheres terem filhos e não só para os automobilistas voarem até ao destino – os que conseguem não se espatifar antes –  e a polícia arrecadar umas massas em multas por excesso de velocidade.
Aqui só entre nós, que ninguém mais nos lê, sabido como é, o ministro da Saúde engendrou tudo isto e vai fazer um brilharete um destes dias a discursar perante ONU ou junto dos colegas da OCDE. Prepara-te! Conseguimos ser o país onde um diabético chega a esperar esperar mais de três meses por uma consulta, um idoso aguarda mais de um ano para ser operado a uma simples hérnia inguinal, mas agora os bebés nascem naturalmente na berma da estrada. Fantástico, Fernando! Espero que os senhores do livro Guiness de recordes estejam atentos.
Os troféus não vão parar de chover. Pelo que já se viu, a estrada de ligação da Figueira da Foz a Coimbra é uma séria candidata a apresentar o maior indíce de nascimentos por quilómetro de extensão. Outras, muitas, virão. A contrapôr às estradas da morte, classificadas pelo número de vítimas que provocam em acidentes, hão-de nascer as vias da vida, os pontos negros de acidentes vão passar a rivalizar com os locais brancos onde mais crianças nascem e aquelas cruzes envoltas em flores que abundam nas estradas a assinalar a morte de alguém vão ter que se haver com um símbolo – proponho uma árvore – a registar que no quilómetro tal veio gente ao mundo.
Depois, arrisco a dizer, mais uma vez, que está tudo pensado, a Direcção-Geral de Viação vai passar a fazer um relatório semanal onde, além dos mortos por acidente nas estradas, vai apresentar os nascidos. Oito mortos e quatro partos bem sucedidos é o balanço da semana passada nas estradas de Portugal Continental, dirão as notícias. Queres melhor do que isto, Fernando. Acredito que podes exigir. Mas é preciso o ministro fechar mais maternidades. Como já perecebeste, é só uma questão de tempo.

Um saudável e recordista abraço.

António Martins Neves