Revoltado Fernando,
subscrevo tudo o que escreveste sobre a onda de xenofobia que varreu a África do Sul, aparentemente já controlada pelas autoridades. Sobre coentros e saudades, falamos depois, ao vivo, porque as cartas têm as suas limitações. Aproveito antes a deixa da discriminação para te dizer que essa praga não anda longe da nossa porta: por aqui não há perseguições na rua nem linchamentos em função da cor da pele ou do país de nascimento, mas não tenhas dúvidas acerca do racismo que está instalado na sociedade. Dito de outro modo, não se vê, mas sente-se. E ouve-se.
Não fiz nenhuma sondagem nem qualquer estudo de opinião, mas tenho como certo, pelo que oiço e leio, que a maioria da população dita portuguesa tem preconceitos em relação a quem para cá imigrou. Seja pela cor da pele, pelo sotaque. Não poucas vezes ouve-se a expressão “essa gente que veio para aí”. Até na imprensa continua a ser feita a distinção entre quem tem ou não a nacionalidade portuguesa ou acerca daqueles a quem se consegue atribuir uma suposta etnia. As forças policiais, de quem se espera um contributo fundamental para acabar com preconceitos, também não escapam. Um dirigente sindical da PSP veio há uns tempos atribuir o surgimento do roubo de automóveis por “carkjacking” ao aumento da imigração.
Esta postura discriminatória surge, numa aparente contradição, mais enraizada nas classes com menos rendimentos e menos instrução, que alimentaram o fluxo de muitas centenas de milhar, milhões mesmo, de portugueses que procuraram pela Europa e américas, desde os anos 60, a vida digna que lhes era (é?) negada cá. Mão-de-obra indiferenciada tal como a maioria dos que nos procuram para trabalhar. Ocupam-se no que lhes aparece, ganham menos e não se queixam. Precisamente o que ocorreu, e ainda se mantém, apesar de tudo, entre os que saíram do país.
Por mais que os cientistas sociais e os políticos – excluindo os mais à direita, claro está – digam que a imigração traz mais benefícios do que desvantagens, as pessoas continuam a reagir com sentimentos primários de rejeição. Os imigrantes chegam já escolarizados, aptos a começar a trabalhar e sem terem custado um cêntimo ao erário nacional. Por outro lado, mas não menos importante, vêm ajudar a resolver o problema da quebra na natalidade, que ameaça hipotecar a nossa reforma, com cada vez mais idosos e menos jovens na sociedade. Sujeitam-se às tarefas mais ingratas, como as limpezas e a construção civil, rejeitadas pelos autodenominados “portugueses”.
Este quadro ocorre numa altura em que a percentagem de imigrantes está muito áquém dos dez por cento. Ora nos países mais ricos, que são os que mais imigrantes acolhem, os números ultrapassam facilmente os 15 por cento, casos da Suiça, da Áustria e países nórdicos. Ainda hoje lia num jornal que a “capital” petrolífera da Noruega tem 17 por cento de estrangeiros.
Feitas as contas com estas parcelas todas, fica por saber o que acontecerá por cá se as mentalidades não mudarem e o número de estrangeiros a vir viver para o país aumentar para aqueles valores. Pelo que se nota actualmente, não excluo que as reacções adversas, que poucas vezes passam do campo verbal, venham a traduzir-se em actos violentos. Se a crise económica continuar a agudizar-se, provocando mais desemprego, mais marginalidade e inerente violência, é fácil prever sobre quem vai recair o ónus. Não será como na África do Sul, quero crer. Mas é quase garantido esse recuo da civilização que envergonha qualquer país. Por maioria de razão numa nação que tem as mesmas fronteiras há mais de 800 anos, depois de por cá terem passados bárbaros, romanos e árabes, entre outras culturas, dos quais todos descendemos e a quem devemos agradecer o facto de terem evitado que possa usar com alguma legitimidade esse palavrão malfadado que é “raça”. Vamos ter esperança, Fernando, sem esquecer que quando emagrece a carteira costuma-se atribuir a culpa aos outros. Meio caminho andado para engordar esse sentimento repugnante que é o ódio. Resta-nos a esperança de que nada disto se cumpra e a sociedade portuguesa evolua: para bem dos que cá estão e dos que hão-de vir.
Um tolerante abraço.
António Martins Neves

