Não faças o que ele diz, nem o que ele faz
fechado Publicado por António Martins Neves 5 Abril 2008 em Portugal.
Preocupado Fernando,
um destes dias falar-te-ei também dos atentados urbanísticos contra o que resta da bela natureza de que nos podíamos orgulhar por aqui. Mas hoje queria deixar-te ao corrente de uma “guerra” que foi declarada aqui, da Igreja Católica contra o Governo socialista, a quem acusa de ser “militantemente ateu”. Como resposta, obteve o quase silêncio dos visados, mas a verdade é que os bispos já não podem com a espada para lutar, pois a refrega está definitivamente perdida na sociedade e tinham que inventar um outro inimigo para justificar a falta de forças e o desfalecimento de uma instituição que dominou o país de mão dada com a ditadura de Salazar.Esta contenda que não vai longe, pois parece ter caído num poço sem fundo, levou-me, parece-me que pela primeira vez, a concordar com o cronista mais polémico e “bota-abaixo” da Imprensa Nacional: Vasco Pulido Valente, de quem já te falei noutras ocasiões. Diz ele que nenhuma liberdade foi retirada à igreja. E é verdade. O que ela não tem é as facilidades que o Estado já lhe proporcionou para influenciar a sociedade no seu todo e, se possível, até dominá-la. Como representante máximo do conservadorismo – se dependesse dos seus líderes, creio que os contraceptivos ainda hoje não seriam permitidos em Portugal – o grupo de bispos não se adapta à ideia de que os tempos são outros e, pelos vistos, recusa-se a aceitar a realidade onde sobrevive. E vem exigir as “condições necessárias” para o povo viver a religião, a católica obviamente, que não esconde querer continuar a ter privilégios sobre muçulmanos, hindus, judeus, budistas ou protestantes. Só que Portugal já não é um estado religioso, mas antes um país laico onde o Estado está “quase” completamente separado das igreja. Recordo-te que ainda há pouco tempo cada sala de aulas das escolas públicas tinha um crucifixo na parede.
Antes de me adiantar mais nesta minha diatribe deixa-me declarar os meus interesses na matéria. Para tristeza minha fui baptizado, ao contrário do meu pai, que fez questão que eu entrasse para a contabilidade católica como mais um dos seus seguidores, que ele nunca foi. E para conseguir que me deitassem a água benta por cima até cometeu o “pecado” de dizer ao padre que era baptizado, caso contrário eu estaria impedido de o ser. Já pensei pedir-lhes para riscarem o meu nome dos livros deles, mas alguém me advertiu que me iria meter num processo longo e chato, difícil de atingir. Sou comodista, portanto. Mas não sou católico. Mais do que uma mera questão de estaística como a minha, o que a Igreja e os seus líderes transferiram para a sociedade portuguesa foi a hipocrisia que sempre encontrei nas suas atitudes e nos seus actos. A maior delas será a do “católico não praticante”, que se ouve dizer de muitas bocas e que nunca ninguém sabe explicar convictamente o que é. Na prática dizem-no porque é de bom tom afirmar-se crente e jamais por os pés numa igreja, casar-se e ir à missa só se for obrigado e baptizar os filhos porque “se não faz bem, mal também não faz”. Isto tudo sustenta as estatísticas que dão Portugal como um país de maioria católica, mas de igrejas vazias e cada vez menos almas a quererem entregar-se ao sacerdócio.
Encurralada neste cerco, a tropeçar nas próprias pernas, a igreja é incapaz de dar a volta por cima e adaptar-se à vida e aos valores que as pessoas têm (se têm) actualmente. Só a ferros lá concederam o divórcio, aborto nem pensar, casamento de homossexuais? Chamem a polícia!
A par de tudo isto, estamos perante uma instituição riquíssima, que nada em dinheiro. Há dias publicou-se sobre a matéria e ficámos a saber que muito líder daquele rebanho tem muito mais de empresário do que sacerdote, tamanhos são os investimentos que gerem. Isto é o que chega à opinião pública através dos jornais. Outro “horror” que me vem sempre à mente quando se fala na Igreja são as barbaridades conhecidas de cardeias, bispos e padres cometidas contra crianças nos Estados Unidos, que os obrigaram ao pagamento de indemnizações milionárias às vítimas dos abusos sexuais. Por cá nunca se falou no assunto. Só se diz à boca pequena que em muitas localidades do país padres houve ou há que deixaram uma vasta prole de filhos. Conheci uma dessas pessoas, que assumia ser neto de um padre e dizia ter muitos tios e tias…Claro que o voto de castidade a que são obrigados os sacerdotes é só uma piada de mau gosto e uma imposição que só penaliza a igreja e aduba a hipocrisia em que sempre cresceu e se desenvolveu. Olha, mas isso é lá com eles. Como dizia o meu avô, que me deu o prazer de assistir ao seu casamento civil que realizou apenas e só para a minha avó beneficiar de assistência médica por via do matrimónio, cada um faz a cama onde acaba por se deitar – ou, neste caso, a cova para se enterrar.
Um laico e descomprometido abraço.
António Martins Neves

