Música com pedras
Publicado por António Martins Neves 28 Junho 2007 em Portugal.
Etnomusicólogo Fernando,
tu falas-me de gaitas e eu vou responder-te com saias. Gostei de saber mais sobre essa figura marcante da música tradicional cabo-verdiana chamado Codé di Dona. É o retrato acabado de amor a uma arte que o artista nunca conseguirá explicar. É muito prazer, muita emoção, muita coisa boa misturada e isso não precisa, nem tem que ser explicado. Vais é conhecer nesta resposta exemplos parecidos, mas sem gaitas, apenas com pedras e a voz com que nasceram. Tive o prazer de ouvir e não me arrisco a descrever o que senti porque as palavras são curtas. Só te digo: enriqueci. Musicalmente e espiritualmente.
Aconteceu-me há uns anos ouvir falar de uns originais músicos de Arronches, distrito de Portalegre, Alto Alentejo, que cantavam enquanto marcavam o ritmo com pedras! Isso mesmo, aquelas que os nossos antepassados pré-históricos usaram para as mais elementares acções de sobrevivência. E fui lá, ver e ouvir. Encontrei três personagens excepcionais, exemplos acabados de que a música, e as artes em geral, moldam o carácter das pessoas. Não é músico quem quer, mas apenas quem pode. E aqueles três podiam muito.
Vamos aos factos: um usava dois seixos como castanholas (tinha aprendido a tocar assim em Espanha) e marcava o ritmo que fosse necessário. Gabava-se até disso sem constrangimentos: “Cante o que quiser que eu acompanho-o”, desafiou-me ele. Joaquim Miranda de seu nome, tinha na altura já 73 anos. Um figurão. Rijo como as pedras que retinia na mão sem dó, chapéu preto, um pouco deitado para trás, um indisfarçável ar de rufia herdado da juventude passada atrás de uma vara de porcos, ribeira abaixo, ribeira acima.
O “intelectual” do grupo, era, sem dúvida, Carlos Maurício, um ano mais novo, mas no papel do músico completo: compunha, cantava e tocava…pedras. E que cantava ele, acompanhado pelos dois camaradas? Saias, um género de música tradicional do Alto Alentejo, cantado quase sempre a uma só voz, com um ritmo acelerado e uma melodia forte mas repetitiva. Perdoa-me se não sei descrever tecnicamente e com correcção o que tive o prazer de ouvir há perto de 15 anos…
No terceiro elemento do grupo estava, na altura, a esperança na salvação daquela arte que não descobri em mais canto nenhum do país. As enciclopédias falavam que no Minho teria havido algo semelhante, pesquisei mas nada encontrei. A estrela promissora em Arronches dava pelo nome de Manuel Fonseca, 50 anos, pedreiro, um aluno que custou a entrar na “matéria”, mas que depois já deixava os mestres descansados porque lhes parecia haver ali seguidor da arte.
Conhecido pelo “Pipas”, o caçoilo do grupo optou pela “escola” do “ti” Carlos Maurício: tocar com três seixos na mão esquerda, que a direita fazia ressoar entre si, produzindo uma secção rítmica invejável a qualquer grupo de percursionistas. Estavam ali duas técnicas distintas e o mesmo efeito fantástico.
Idas à televisão e algumas viagens ao estrangeiro por convite faziam parte do currículo daqueles homens, que retinham nas mãos e numas pedras um património difícil de avaliar.
Arte à parte, deixa-me dizer-te que o pior de tudo estava na selecção dos instrumentos, que é como quem fala das pedras. As gaitas cabo-verdianas, os cavaquinhos, os violinos, os violões constroem-se, as pedras não.
Recordo-me como hoje de lhes ter proposto na altura ir ao leito do rio Caia, donde elas vinham. Andámos, andámos, eles testaram e testaram e nem um calhau afilado tinha as mínimas características para ser vibrado na mãos calejadas daqueles artistas. Eles depois reconheceram que acederam ao meu pedido por graça e para tirarmos umas fotografias. Manuel Fonseca deixou para o fim a explicação: uma vez, no seu trabalho de pedreiro, em 40 camiões carregados de cascalho daquele rio encontrou uma pedra tocável. Queria ele dizer que em 800 toneladas de seixos dera com um, para aí com algumas 100 gramas, capaz de alinhar com as outros dois e fazer o trio desejável. Como vês, Fernando, histórias de músicos e de música, felizmente, há-as em todo o lado. Ricas, lindíssimas, nobres para os seus protagonistas e para nós, que temos o prazer de os ouvir.
Quando encontrares Codé di Dona, conta-lhe esta história. Quem sabe se um dia ainda vamos ouvir a gaita a acompanhar as saias…
Um musical abraço.
António Martins Neves



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