Distante Fernando,
venho reincidir no “drama” da Escola Carolina Michaelis, do Porto. Os alunos voltaram hoje às aulas depois das férias da Páscoa e na turma “mediática” já não estão nem a rapariga de 15 anos que lutou com a professora para obter de volta o telemóvel que estava a usar indevidamente na sala nem o colega que, seguindo-lhe os passos, filmou o momento chocante com outro daqueles aparelhos e foi a correr colocá-lo na Internet. É que hoje, sem nada de novo para mostrar, as televisões correram à escola, que como tantas outras teve (terá mais?) uma história de violência entre alunos e professores.
E vi na RTP, por exemplo, uma entrevista com um dos colegas, de quem não mostravam a cara, obviamente, e do qual não retive nada do que disse, porque no plano do ventre para baixo só o via a brincar com um…telemóvel na mão enquanto era entrevistado. É o brinquedo do momento. Qual bola, qual yô-yô, qual nada…quem não tem telemóvel parece não existir. Lá terão acordado desligar os equipamentos nas aulas. Quem violar as regras fica sem o aparelho, que só será devolvido aos pais. Ora aí está o que se apresenta como um erro crasso: os pais já deviam ter sido chamados para uma reunião com todos os professores da turma, mais o conselho executivo, para decidirem em conjunto como resolvem o problema. Se não podem de dia, faz-se um serão. Mas disso eles não poderiam escapar-se de forma alguma. Assim, não acredito que funcione nos próximos meses. E duvido que melhore o relacionamento entre docentes e estudantes. Disseram da escola que hoje passaram o dia a falar do problema na turma e nas outras turmas. Vou esperar sentado para ver. O que nunca iremos conhecer, porque jamais se irá saber o que se passar de violento naquela escola, porque a todos envergonha: professores, alunos e pais, naturalmente. Se tiver alertado o país para uma vergonhosa realidade escondida, como muitas outras, valeu o sacrifício de todos: protagonistas e “assistentes”. Até o Presidente da República se mostrou preocupado com o assunto, imagina. Que sirva de exemplo. Mas sem polícias ao barulho, insisto. É um caso de pais, alunos e professores, e vão ter que ser os três grupos a descobrir o caminho que os retire do cadafalso.
Deixo-te as crianças portuguesas e a violência escolar, para saltar para mais perto de ti e te referir uma realidade que já não é nova - a agência Lusa já a noticiou há bastante tempo - e que é igualmente chocante. Hoje mereceu a foto da primeira página do Público. São as crianças guineenses de familías muçulmanas, supostamente enviadas para o vizinho Senegal para aprender o Corão, mas que na realidade acabam a pedir esmola nas ruas a mando dos “mestres” religiosos que delas se encarregam. Miséria, num outro patamar, muito mais fundo. São rapazes, como o Islão determina, ao dar predominância quase absoluta aos elementos masculinos e a remeter para uma escravidão disfarçada as mulheres. Acontece na Guiné-Bissau, mas também no Senegal, na Arábia Saudita, no Paquistão, no Afeganistão e um pouco por toda a Ásia covertida à religião de Maomé.
Só que esta realidade guineense, por ocorrer num dos países mais pobres do mundo, mas onde o presidente da República, um ditador que conseguiu ser eleito alguns anos depois de ter estado refugiado em Portugal, que dá pelo nome de Nino Vieira, vai de avião particular ao médico a Paris, como não me canso de te contar, torna-se mais atroz. Ocorre num país onde as mulheres são mutiladas genitalmente. As mais velhas, entre as comunidades muçulmanas, cortam o clitóris às descendentes, quando são ainda crianças ou pré-adolescentes e tranformam-nas em objectos do ponto de vista sexual, porque nunca na vida sentirão prazer quando tiverem relações sexuais. Esta violação grave dos direitos humanos acontece com uma justificação religiosa completamente falsa e sem sentido. Na pátria do profeta não se pratica excisão genital feminina. Na Guiné, como noutros países africanos onde se professa o Islão, essa é uma forma encontrada para dominar politicamente e para atingir outros objectivos que nada têm de religioso, mas apenas o domínio do grupo masculino sobre as mulheres, que transformam em objectos para trabalhar e ter filhos (quando não morrem no parto) depois de os conceberem muitas vezes num gesto comparado à tortura. É a religião, Fernando. Lá como cá, os pastores das almas só não dominam o que não podem. Por aqui já lhes puseram o pé à frente para os obrigarem ao recuo, até no domínio na vida privada, porque ainda há poucos anos apregoavam que o sexo só se devia praticar para procriar…
Como vês, as diferenças, atendendo ao estado das sociedades, não são assim tão diferentes. E têm sempre em comum o facto das religiões quererem dominar a vida em sociedade e não apenas encaminharem as almas e darem-lhes “bons conselhos”. Confessa-te, que eu perdoo-te, se pagares cinco litros de azeite e um alqueire de trigo. E ando eu a esforçar-me por te enviar boas novas…

Um abraço sem hipocrisia.

António Martins Neves


0 Responses to “Muitos telemóveis, pouco rock e nenhum sexo”

  1. No Comments

Leave a Reply





PARCEIROS