Irreverente Fernando,

há dias assim, de sorte. Mal se sai à rua e passa-nos à frente dos olhos o encanto de qualquer desses políticos e dirigentes governamentais obcecados com o controlo da vida privada das pessoas: nada menos que um rapaz com uma tatuagem no pescoço, atrás. Um código de barras bem definido e clarinho como os que ostentam qualquer pacote de margarina ou molho de salsa do supermercado.
Qual cartões magnéticos para reunir todos os documentos pessoais, qual chips debaixo da pele. A solução ia ali naquele pescoço desgargalado.

Cria-se uma base de dados, uma entrada para cada pessoa e transforma-se tudo o que importa saber sobre a criatura num conjunto de linhas negras verticais, que podem ser lidas por qualquer aparelhómetro nas mãos de funcionários encartados, polícias e todos os candidatos a escarafunchar na vida alheia.
O banal “identifique-se” das autoridades passaria a ter como resposta um natural virar de costas e uma simples resposta: “leia!” Desapareciam os passaportes e todo o tipo de cartões de saúde, de doença, de dívidas, de crédito, condicionantes, permissivos, profissionais, tudo!
Seria assim uma espécie de DNA à flor da pele que tudo revelava a qualquer maquineta sobre a vida do tatuado, que, como deves estar a pensar, teríamos que ser todos. A única forma de contornar controlo tão eficaz, sempre possível como em tudo, seria “comprar” os artistas que fariam as barras na nossa pele, para nos atribuírem números falsos  e levar as máquinas a jurarem que estamos a dormir em casa em vez de no gozo de umas belas férias nos trópicos. Como em tudo nesta vida, haveria os prevaricadores do costume, as ovelhas negras que não aceitam o número de registo  na orelha, nem o cartão único, nem o circuito integrado debaixo do sovaco.  Alguns, certo e sabido, iriam de recurso em recurso até acabarem com os traços pretos averbados em locais menos próprios como a língua…
A única desvantagem seria os outros, os conscientes a acatadores cidadãos, andarem sempre a virar as costas a quem os interpelasse e exigisse que se identificassem. Até o hábito se impor, causaria estranheza e alguns pensamentos pouco ortodoxos.
 Mas podia sempre haver alternativa, Fernando! Por exemplo num dedo. Eu preferia que me colocassem o dito código na parte interior do médio: à interpelação, eis-me de dedo espetado, a identificar-me…
Se a ideia vingar, espero não ser o único a fazer sugestões e a dar largas à imaginação e ao “empreendedorismo” da moda. Se daqui por uns tempos vires alguém baixar as calças à frente de um polícia  e demorar a identificar-se, já sabes: está tornar o código de barras legível para o leitor…

Um descontrolado abraço.

António Martins Neves


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