Morrer, mas de gravata

Informal Fernando,
há dias falei-te de medidas simples mas estruturais, que os governantes evitam como sarna, quando falei do incentivo do uso do gás GPL nos automóveis. Nestes dias recordei-me de outra ainda mais simples, quando vi uns homens engravatados nuns carros oficiais estacionados, de vidros fechados e com os motores a contribuírem afincadamente para o efeito de estufa.
Se estás a pensar em gravatas, acertaste! Sei que não és um utilizador de tal peça decorativa e eu não me recordo da última vez que pendurei uma ao pescoço. O que os dois sabemos é que faz parte da farda de quem se acha bem vestido, mas qualquer ambientalista encartado explicará que o seu uso contribui de forma afincada para o aumento do capacete que anda por cima das nossas cabeças e teima em asfixiar-nos. Passo a explicar: aqueles homens de que te falava estavam ao volante de viaturas estacionadas no parque reservado da Assembleia da República e esperariam por membros do Governo que naquela tarde se encontravam no Parlamento. O normal seria que enquanto esperavam pelos governantes que conduzem tivessem os motores das bombas desligados e ficassem na bela sombra que o monumental edifício lhes proporcionava.  Mas como aqueles a quem servem instituem as regras e dão os piores exemplos no seu cumprimento, os diligentes funcionários do Estado preferiam estragar os pulmões deles, ao respirarem o ar condicionado, e os nossos, ao queimarem desnecessariamente gasóleo para se manterem frescos. Estavam pelo menos dois entre uma meia-dúzia neste lindo preparo ali ao lado da porta principal da casa da Democracia. Abrir as portas e a mala para refrescarem as “máquinas”, poupar dinheiro ao erário público e poluir menos é algo que nunca lhes deve ter passado pela cabeça. Nem aos governantes que os chefiam e que – hei-de insistir sempre nisto – têm obrigação de dar o exemplo. Obviamente, estavam todos engravatados e de fato escuro com uma temperatura de mais de 30 graus. Uma fardamenta perfeitamente adequada à saúde e à fazenda pública.
Há muitos anos que países dirigidos por pessoas que pensam no bem comum, como o Japão, concluíram que andar de gravata de Inverno e de Verão é uma monotonia que sai muito mais cara do que parece a quem se permita andar distraído. Usar apenas camisa com gravata de Inverno obriga os executivos e gente que se acha bem apresentados assim vestidos a aumentar a temperatura do ar condicionado para sobreviverem ao frio que rapam. Se puderem vestir um pullover o ar condicionado pode logo baixar uns graus e evitar o consumo de uma quantidade considerável de energia. Menos poluição, menos custos, só vantagens. Situação inversa acontece de Verão. Se puderem tirar a gravata e despir os casacos escuros podem subir uns graus no termostato do gabinete e…poupar mais energia e combustível e dinheiro e saúde e…Nos dois casos, ao que dizem os especialistas, aumentam o rendimento porque trabalham com temperaturas mais “naturais”, portanto mais adequadas ao corpo humano. Parece óbvio, não é? Não senhor. Fino é ter sempre os motores das bombas ligados, andar de fato escuro e gravata o ano inteiro e aconselhar o “povo” a “ser amigo do ambiente”. Pobre mãe que tais filhos tem.
Não seria nenhum conforto, mas se as empresas privadas mostrassem visão diferente sempre sentíamos uma réstia de esperança. Dizem que eles é que são e exemplo a seguir…Nada mais falso, no caso. Entre-se num banco qualquer de manga curta agora à beira do Verão. Lá estão os empregados fardadinhos, o nó da gravata a apertar o gasganete e o casaquinho preto, cinzento escuro ou azul da ordem. Os clientes podem espirrar de frio. Ainda por cima são eles que vão pagar aquela conta de energia ao fim do mês, como já pagam a dos governantes por andarem ensamarrados em pleno Verão. Deve ser dos gases que produzem o efeito de estufa, mas queres crer que nem os ambientalistas, sempre expeditos a apontar o dedo aos poluidores, se atrevem a chamar esta gente à razão! Acho que isto só lá vai quando os apresentadores dos telejornais deixarem de lado a gravata. Alguns já experimentaram, mas devem ter sido reprimidos pelos chefes. Gravata deve garantir audiência. Valha-nos, como quase sempre, as mulheres: menos informais e mais imaginativas, adequam-se aos momentos, de Verão ou de Inverno, e já nem são repreendidas, felizmente, por aparecerem de braços nús a anunciar-nos o que vai pelo mundo. Admito que não tenho muita esperança de ver as atitudes mudarem e adequarem-se mais ao bem comum e menos ao conforto individual. Sabes o que me parece, Fernando? É que não são só os governantes guineenses a morderem a mão de quem lhe ensina a amassar o pão. Aqui também parece estar instituído entre os governantes que foram mandatados para nos pedirem tudo o que se recusam a fazer. Que mal lhes fica a gravata…

Um natural abraço.

António Martins Neves