Admirado Fernando,
tem-me faltado o tempo para a escrita. E a vontade também não tem abundado. As novas são quase todas velhas e o trabalho tem-me deixado pouca disponibilidade para te ir dando outras notícias. Quando esta onda passar, espero contar-te por que mar ando a navegar estes dias. Abriu-se-me só uma fresta de tempo com menos borrasca e dei de caras com um mistério, que venho repartir contigo. Protagozinado por um vulgar copo de água da torneira.
Dia de semana, meio da manhã. Uma pastelaria em Benfica. Quase todas as mesas ocupadas por aposentados no  cumprimento da rotina diária. Café, eventualmente um jornal, e muita conversa com as companhias do costume. Sento-me na única mesa livre. Instantes depois uma senhora pergunta-me se espero alguém, se a mesa de quatro lugares vai ficar toda ocupada. Ouve a negativa que queria e abanca do lado posto. Aparenta uns 70 anos bem poupados. Uma boina clara esconde-lhe por completo o cabelo, os anéis abundam nos dedos nada enrugados, e por baixo do casaco, imagina, uma blusa a imitar pele de leopardo. Terá sido o que restou de passadas atitudes mais felinas do que o actual quotidiano a lutar para que os dias não passem. Na mesa ao lado dois conhecidos, entramela conversa, fala que foi ver os cães de alguém, mas cala-se quando o empregado chega e poisa à sua frente um café daqueles fraquíssimos e um copo de água. É cliente habitual, sem dúvida. Eu pedira antes de ela se aproximar e continuo à espera como é comum aos forasteiros em casa de hábitos arreigados.
Antes de tudo, tira um guardanapo da caixa que está em cima da mesa, coloca-o sobre o copo e torce as pontas de um lado e outro de modo a ficar ajustado ao bordo, como se o quisesse estanque. Ops! Que raio…Temos enfermeira reformada obsecada com a contaminação da água que bebe pelo ar que respira? Pensando bem, parece mais uma gestora de herança basta com criada de servir interna. Lá foi o cariocazinho, levezinho, para não roubar o sono à noite, e pronto. O copo afastado, à espera. Depois, ergue a mala e tira lá de dentro um jornal dobrado em quatro. Pelo pouco volume calculo que seja um diário gratuito que lhe estenderam na rua. Perdi a aposta quando a senhora de ar fino, aparente vida despreocupada e requintadamente vestida desdobra o Jornal de Arganil. Isso mesmo. Aquela localidade do distrito de Coimbra, lá no meio das serranias, muitos fogos no Verão e mais esquecimento no resto do ano.
Será de lá? Não vejo grande alternativa. Temos portanto uma beirã bem posta na vida, eventual proprietária de pinhais,  que aterrou sabe-se lá já quando num bairro burgês de Lisboa que lhe vincou o ar próspero e varreu qualquer restício de origens serranas. Que seja. Com isso tudo mais o Jornal de Arganil passava completamente despercebida não fosse aquele copo de água. Continua intacto. Fechado, diria quase atarrachado, à espera de um destino que volto a não conseguir advinhar. Assim tapado porquê? Para não entrarem bactérias, vírus, fungos ou outras criaturas indesejáveis? Afastar por completo a hipótese de uma mosca…? Não se vê rasto delas. Passei ali uma meia-hora e a senhora de camisola de fantasia à leopardo que lê o Jornal de Arganil lá ficou com o copo, aquele chapéu à laia de padeiro no topo, colocado à distância de um braço estendido sem eu supor o que o espera. Ainda pensei indagar mas desisti. A uma senhora de boina e muitos anéis não se pergunta um segredo! Nem que seja acerca de um copo de água.

Um cuscovilheiro abraço.

António Martins Neves


1 Response to “Mistério de um copo de água”

  1. 1 Maria da Conceição Oliveira

    Boa noite

    Deambulando de blog em blog deparei-me com este texto delicioso. Como estou ligada à edição de Jornal de Arganil, gostaria de o publicar. E saber mais sobre o seu autor.
    Agradecida

    Maria da Conceição Oliveira