Misérias e lantejoulas
Publicado por Fernando Peixeiro 12 Agosto 2007 em Portugal.Caro amigo
A competição de hoje e a obrigação de sermos todos bem sucedidos é, para mim, coisa antiga. Os emigrantes portugueses poderiam ter vidas miseráveis em França ou no Luxemburgo, em Londres ou Amesterdão, mas quando vinham à terra tinham de mostrar os seus sucessos. Era assim há 40 anos e é hoje assim. Os brasileiros que vêm para Portugal também não podem, e friso, não podem, voltar a casa sem nada. Nem os cabo-verdianos, angolanos, argelinos, ucranianos, senegaleses, sejam lá de onde forem e para onde vão, admitem hoje ou admitiram ontem o opróbrio de emigrar pobre e voltar da mesma maneira. E se é preciso mentir-se, pois que se minta!
O António, creio que até já te falei nele, é cabo-verdiano e trabalha nas obras de construção civil aqui na região de Lisboa. Vive na periferia e está por cá há mais de três anos. Em Abril deste ano regressou, pela primeira vez, a casa, à Cidade da Praia. Deu gosto ver aquele ar de felicidade quando o avião se aproximou da capital e ele viu a sua terra depois de tanto tempo.
O António foi meu companheiro de viagem nesse voo de Lisboa para a Praia. A meio do caminho pediu-me ajuda para colocar uma grossa pulseira de ouro. Pensei que se calhar a pediu emprestada, até porque, pelo que me disseram alguns amigos em Cabo Verde, é costume os emigrantes que vão passar férias à terra pedirem coisas em ouro emprestadas, para mostrar aos amigos e família como se deram bem no estrangeiro.
Um amigo meu, de S. Tomé, dizia-me há alguns dias para eu reparar nas pessoas que chegam por esta altura, em grandes quantidades, ao aeroporto da Praia. “Com este calor vêm todos cheios de casacos quentíssimos, só para mostrar que têm coisas caras”, dizia-me ele. Mas há mais. Há até casos de pessoas que pedem roupa emprestada para levar nas férias. E em casa, na rua, no bairro, na cidade, não se cansam de mostrar, não o dizendo porque não é necessário, que têm uma “grande vida” lá fora, que têm prestígio, um trabalho interessante e sobretudo muito dinheiro. E que responde uma pessoa bem sucedida a uma parente, pobre porque nunca emigrou, que lhe pede aquele vestido de sonho? Ora! Dá-se-lhe o vestido, claro! De onde esse veio há muitos mais! Não me faz falta! Tenho um roupeiro cheio deles!
Pois! No regresso havemos de pensar numa boa desculpa para aquele vestido que pedimos emprestado nunca mais aparecer!
Acredito, caro amigo, que a maioria dos estrangeiros que vem para Portugal e que tem empregos miseráveis a ganhar salários ainda mais miseráveis nunca o irá admitir perante amigos e familiares na sua terra natal. E tu sabes, nós sabemos, que se as coisas a uns correm bem, outros comem o pão que o diabo amassou, como se costuma dizer.
E acredito que será assim em todo o mundo. Escondemos as misérias quando as temos e mostramos as lantejoulas que muitas vezes não temos. É isso, de resto, que esperam de nós.
Já te disse uma vez e repito. As famílias daqueles que se metem em barcos precários, nas costas de África, para tentar chegar à Europa, hão de pensar sempre que os que partiram têm uma boa vida nessa terra “fantástica”, mesmo que nunca mais recebam notícias deles.
E muitas vezes, debaixo de uma árvore, à beira de um rio, à soleira da porta, estarão a imaginá-los ricos e felizes num país qualquer do velho continente. Duvido que nesses sonhos alguma vez os vejam a viver num bairro de lata, a pedir esmola, ou simplesmente a repousar no fundo do mar.
Um sincero abraço
Fernando Peixeiro



Peixeiro, António… por falar em (i)emigrantes, ora tomem lá esta…
mantenhas.
Adolfo de Carvalho, 54 anos, vive há sete da recolha de garrafas nas ruas de Copenhaga, Dinamarca. Assume-se como um «sem-abrigo» com um «ordenado» invejável para Portugal
Natural de Amarante, Adolfo, conhecido nas ruas da capital dinamarquesa por ‘Porto’, em conversa com a Lusa, garante que vai «morrer nesta cidade» porque não se está a ver a regressar a Portugal para ter um emprego que, «no máximo, daria 500 euros por mês».
A explicação é simples. Todos os dias consegue, com o seu trabalho, guardar 50 euros, «no mínimo», e «comer e beber bem», apesar de dormir na rua, «onde calha». Um «príncipe» português que admite «reinar» nas ruas da capital dinamarquesa.
O seu «banco», onde guarda as poupanças diárias, é uma casa de banho pública, que, em Copenhaga, dispõem de cacifos que podem ser alugados ao mês, guardando os restantes haveres num carrinho de mão.
Este pequeno carro, coberto com um oleado verde «porque chove muito nestas terras», serve-lhe, ao mesmo tempo, para recolher e transportar garrafas vazias que, depois, vende por entre uma e três coroas dinamarquesas cada (entre 15 e 40 cêntimos de Euro).
Adolfo de nada se queixa, até porque todos os anos faz «duas a três semanas» de férias em Portugal e «só» viaja de avião.
Já não tem família em Portugal, mas todos os anos visita um «bom amigo» que tem em Matosinhos.
Adolfo prefere ser sem-abrigo na Dinamarca do que regressar à sua antiga vida em Portugal, apesar de ser um «funcionário público» com uma licença sem vencimento «por 10 anos», sendo o seu antigo local de trabalho uma escola de Amarante, onde está(va) colocado como electricista, a sua profissão.
«Não, não me estou a ver regressar a Portugal por causa dos 500 euros que os meus antigos colegas ganham. Estou bem aqui e é aqui, em Copenhaga, que vou morrer. Só espero que seja daqui a muitos anos», disse em conversa com o jornalista da Lusa.
‘Porto’, como é conhecido na cidade onde garante que é respeitado «porque se dá ao respeito» e «até onde a polícia já o conhece e cumprimenta» por saber que não é «pessoa para arranjar problemas», afirma ter «muitos amigos» que lhe dão dinheiro, mas «nunca de mão estendida» porque «mendigar, nunca!».
Antes de chegar às ruas de Copenhaga, Adolfo de Carvalho, passou por França, Holanda, Suécia «e outros países», mas em «nenhum deles» se sentiu tão bem como na Dinamarca, onde admite que um dia quer estar integrado no sistema de segurança social para poder ter um quarto que substitua as ruas, e onde quer também vender o Hus Forbi, o jornal de rua dinamarquês.
Isto porque «aqui dão aos sem abrigo um mínimo de 7.000 coroas dinamarquesas», sendo que os seus amigos «da rua» têm esse subsídio e «até mais», como é o caso de um finlandês, Asser, a quem ‘Porto’ chama ‘Esquimó’, que recebe do estado dinamarquês, «sem falta», 10.500 coroas mensalmente.
«Uma fortuna», diz Adolfo.
Adolfo é o único português a viver nas ruas de Copenhaga e garante que tem o estatuto de ser, dos actuais sem abrigo que circulam pela cidade, «o que aqui anda há mais tempo», sendo, por isso, sublinha, «um bom representante de Portugal» por estas paragens.