Mendes & Menezes, PSD

DNVotante Fernando,
não estás a perder nenhum espectáculo de circo memorável, mas a “guerra” que os dois candidatos à liderança do PSD, o maior partido da oposição, decretaram por aqui invoca mais manuais de história medieval do que  regras democráticas do Século XXI. E tem umas belas palhaçadas.
Deixa-me dizer-te que acho fundamental o papel da oposição, seja qual for a sua cor política, mas não pode ser uma afronta de cabeça perdida, como aquela a que temos assistido no Parlamento.
Verdade é que a oposição não é só o PSD. Mas é quem mais lugares ocupa na câmara, mais votos obteve dos eleitores e de quem mais se exige em trabalho legislativo (realizado pelos deputados) além dos eleitos pelo partido do Governo. E de confrontação directa com o Executivo e o primeiro-ministro.
Mas não tem acontecido nada disso. E agora está montada a tenda onde se tem visto um espectáculo deplorável que não indicia nada de bom. Marques Mendes, o actual, e Luís Filipe Meneses, o re-pretendente ao cargo, têm alimentado uma fogueira donde vão sair os dois esturricados quando acabar, no final desta semana, a fogueira das eleições directas para a presidência do PSD.
Mendes é um carregador de pianos. Quem realmente no PSD quer suceder a José Sócrates na chefia do Governo recolheu-se, hibernou, e evitou queimar-se pelo menos durante quatro anos. A avaliar pelo que temos vindo a assistir, se calhar serão pelo menos oito natais. Mendes parece um daqueles homens das artes circenses a brincar com o fogo. Mas que apresentam sempre o mesmo número. Diz tudo no mesmo tom doutoral, não consegue um registo que se aproxime das pessoas, sem aquele ar zangado. Nisso parece-se com Sócrates, só que este sai sempre por cima nas disputas verbais e não se vê mais no líder do PSD do que uma cara impassível quando é desarmado pelo chefe do Governo nas supostas escaramuças parlamentares.
Para o lugar do político de Fafe quer ir agora o presidente da Câmara de Gaia. O Norte a impôr-se, dirás tu. Convêm é lembrar quem é Luís Filipe Menezes. A memória diz-me que foi aquele homem que uma vez deu uma conferência de imprensa com a família ao lado num hotel para dizer que ia abandonar a política. Espectáculo deplorável, ao nível das piores incoerências a que temos assistido, Fernando. Ficou também para a história quando disse que o actual presidente da Comissão Europeia, Durão  Barroso, ainda militante, julgo, do PSD, liderava uma lista “sulista, elitista e liberal” à liderança dos sociais-democratas num congresso do partido donde Menezes acabou por sair com o rabo entre as pernas depois de se demitir da lista por que se candidatava nesse conclave.
Agora tudo parece ter descido ainda mais baixo que o imaginável: são guerras para determinar se os militantes que não pagaram quotas podem votar, se os inscritos dos Açores têm estatuto diferente dos do Continente, que apareceram centenas de quotas de inscritos no partido pagas na mesma máquina multibanco em escassas horas…O mais baixo que possas imaginar. E se quiseres decidir quem deve ser o novo presidente do PSD pelas ideias que defendem e que os distinguem? Zero. Nada. Quem deve estar mortinho de festa é o primeiro-ministro. Com o maior partido da oposição assim, não tem que se preocupar. Vai ser um passeio até 2013, cuja conta nos vai ser apresentada no fim, Fernando. Outro momento perdido, mais uma falha imperdoável para os políticos que só falam em credibilizar a actividade de que vivem. No meio disto tudo, apesar de não nutrir qualquer simpatia pelo PSD nem pelos seus actuais e ex-dirigentes, resta alguma pena de Marques Mendes. O homem não tem corpo para andar a carregar um piano daquele tamanho. Os cabedaludos já deviam estar a dar o físico ao manifesto. Aparecer só na altura da boda e deixar os preparativos da boda para os parentes afastados não é nada dignificante para quem aspira um dia conduzir os destinos do país. Mas é assim que se comportam. Porque dizem que o povo não tem memória. Se calhar, têm razão…

Um abraço apartidário.

António Martins Neves