ArrastãoVerdadeiro Fernando,
sei que a mentira tende a tornar-se uma instituição, pelo menos entre quem assumiu o papel de decidir, mas olha que as meias verdades podem não ser melhores. Hoje, quando ouvi o primeiro-ministro aqui a falar de educação ocorreu-me isso mesmo. Que não basta falar e anunciar para que as medidas se cumpram. E dizer que se vai fazer e deixar as coisas quase na mesma não será mentir mas é um incumprimento do prometido, uma falta injustificada à verdade.
Abrevio-te a história que que te quero contar relatando que este Governo anunciou, após a tomada de posse, que  todos os alunos iriam ter o mesmo horário e apoio à aprendizagem, para que as crianças do ensino básico desfrutassem das mesmas (boas) bases escolares e igualdade de oportunidades. Em suma, acabar com a diferenciação, marcante para sempre na vida, entre ricos e pobres. 

Não cumpriu. No centro de Lisboa, no ano lectivo passado, havia pelo menos uma escola com alunos a entrar às oito da manhã e outros às 13:30 por falta de salas para entrarem todos às nove da manhã como seria desejável. Um regime de “sala quente”. Uma diferença enorme que os tornava  vítimas parecidas: uns alunos chegavam à escola a dormir, principalmente no Inverno, outros entravam na sala de aula estoirados pelas actividades extra-curriculares que haviam tido antes do almoço. Nivelar assim, só se for por baixo. E não tenho indicação de que tenham feito obras para aumentar a escola,  que nem dinheiro tinha para fotocópias, suportadas pelos pais. Portanto, lá estará tudo na mesma, como a lesma…
Outro exemplo de que não basta anunciar aos microfones as boas intenções: numa escola do segundo e terceiro ciclo do ensino básico, igualmente no centro de  Lisboa (nem pode ter a desculpa de estar no “esquecido” interior do país), a  escassez de professores impede que todos os alunos com necessidades especiais de educação possam ter apoio de professores após o horário regular. Sem docentes para as encomendas, a regra é: os que não souberem tirar proveito dessa mais valia serão substituídos pelos que ficaram sem lugar no rastreio e são colocados na fila de espera. Se esta é uma medida para combater o insucesso escolar e levar todos os alunos a concluir o nono ano (obrigatório), estamos conversados: crianças com dificuldades de aprendizagem  afastadas do apoio educativo é fracasso escolar garantido.
E se a aposta na educação leva a que uma escola pública de ensino supostamente gratuito “cobre” 10 euros por matrícula para “despesas”, para quê falar em prioridades educativas, Fernando?
Se a aposta na ignorância é que sai cara ao país (cito de memória), como disse hoje José Sócrates, então podem aumentar os impostos que não há colectas que nos valham.
Na mesma escola, o conselho executivo diz-se incapaz, segundo um director de  turma, de controlar entradas e saídas da escola durante um período de dez  minutos, quando saem os alunos que têm aulas de manhã e entram os do período da  tarde. Se dificuldades destas são inultrapassáveis no nosso sistema de ensino,  estamos a ouvir o quê quando nos apregoam a aposta na educação?
Se, ainda no mesmo estabelecimento, a página na internet é mantida por carolice de alguns professores que reuniram, por opção própria, conhecimentos para tal porque há um único docente de informática para quase mil alunos, também não me parece que haja grande diálogo a alimentar sobre o que está em causa neste campo onde o  líder do Governo não se cansa de tecer loas e anunciar a inovação tecnológica como um (óbvio) parceiro indispensável.
Só com discursos optimistas não se resolvem os problemas da educação. É preciso  medidas e, também, muito dinheiro. Sócrates já disse saber disso. Só falta realizar o que falta. Que é muito e se começar amanhã é tarde. Por isso te digo, Fernando, que uma verdade torna-se uma grande mentira se for dita e esquecida no instante seguinte. Verdade, verdade é que não nos livramos  do anátema corriqueiro dos mais atrasados da União Europeia. Assim sendo, vamos  continuar o nosso caminho…parados. A ouvir dizer quem quase nada acaba por  fazer. Bons discursos só servem para os avaliarmos depois. Quando forem feitas as contas do deve e haver, todas as palavras não vão chegar para justificar o muito que falta mais o que ficou por cumprir. É redundante, eu sei, mas teimamos em continuar a ser o país adiado…

Mais um céptico abraço.

António Martins Neves 


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