Previdente Fernando,
tu a recordares sempre, e bem, o drama que foi o Tarrafal aí em Cabo Verde para as vítimas do regime ditatorial que imperou em Portugal até 1974 e, numa quase coincidência, lá no outro extremo do Mediterrâneo, em Israel, ressurge esse pesadelo a que a humanidade não consegue pôr fim: o das pessoas que perseguem outras pela religião, etnia, cor, cultura ou pela simples razão de pensarem de modo diferente, com respeito pelos outros.

O grupo, felizmente pequeno, que quer voltar às trevas e aos piores períodos da história da Humanidade e a matar em nome de uma suposta raça e da inferioridade das restantes. Contra tudo o que seria de esperar, aconteceu na terra mais improvável.  Considero que vai contra qualquer expectativa porque a terra onde os judeus se fixaram devia ser a terra da liberdade. Eles sabem explicar isso muito melhor do que eu. Devia ser a terra da tolerância, um local onde se cruzaram povos e civilizações como em poucos outros lugares. Sabemos a desgraça que se instituiu com a criação do estado judeu, mas não é sobre isso nem para avaliar isso que decidi escrever-te sobre o assunto. Tornou-se irresistível para mim dar-te conta de que aquele país acolheu um grupo de pelo menos oito jovens russos, a quem concedeu a nacionalidade israelita, e que formaram uma quadrilha que se batia contra…os judeus que os receberam. É verdade, Fernando! Defendem os princípios e a ideologia nazi que mandou milhões de ascendentes dos actuais israelitas para os fornos da morte dos campos de concentração na II Guerra Mundial.
Aparentemente, digo eu, há uma grande falta de informação daquele grupo de rapazolas entre os 16 e os 21 anos. Lembram-me aquela história do cão que quer morder a mão que lhe dá de comer. Só que eles são, supostamente, racionais, e deviam saber (não lhes disseram antes de lhes atribuir a nacionalidade?) que os judeus caminhavam para o extermínio se a Alemanha não tem perdido a guerra, porque Hitler os considerava seres menores?
Foi isso que eles fizeram: instalaram-se em Israel e passaram a defender o homem que preconizava o extermínio daqueles que os receberam e lhes deram nacionalidade, considerando-os como se fossem dos seus. Visto assim a frio, é como querer matar o dono da casa que nos recebe e nos dá cama, mesa, arranja trabalho. Se aqueceres um pouco mais a mente, Fernando, concluis que no melhor pano cai a nódoa. Se tu ou eu quisermos emigrar para Israel, não sei se poderemos. Aqueles energúmenos tiveram logo direito a nacionalidade e agora é que vêm dizer que os deverão expulsar se forem condenados. E não me venham com excesso de liberdade e de tolerância porque podemos logo ir buscar milhões de palestinianos para provar o contrários e mais israelitas para garantirem que vivem numa dita democracia que sobrevive mais à força das armas do que com base na razão.
Como vês, Fernando, há muita gente que não conhece o Tarrafal, mas precisava passar uns escassos dias lá, como ele foi, para perceber como os homens não se distinguem por raças nem credos, mas apenas pelo carácter e pelas convicções de que a Humanidade só sobrevive se as ideias avançarem e se libertarem dos preconceitos a que alguns tentam amarrar o Mundo.

Um livre e esperançosos abraço.

António Martins Neves


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