Maddie vai aparecer, dizem milagreiros
Publicado por António Martins Neves 18 Agosto 2007 em Portugal.
Informado Fernando,
há mais de três meses dirigi-te algumas reflexões sobre o desaparecimento da criança inglesa no Algarve. Mal sabíamos nós que agora, mais de 100 dias depois, tudo estava na mesma e sem fim à vista. Da menina nem rasto, a polícia dá a entender que quase nada sabe, a imprensa, principalmente a dita popular e particularmente a britânica, continua a acreditar que o futuro há-de ser o que eles quiserem e que conseguem fabricar a realidade. Triste exemplo para quem tem a responsabilidade tamanha de informar o povo de um dos países mais importantes do planeta… Esta é mesmo uma Terra de contrastes, Fernando…
Resumindo os quase incontáveis capítulos do folhetim, temos as televisões inglesas a fazer directos e abrir telejornais dias seguidos do areal algarvio a dar a entender que a criança havia sido raptada, a tese que os observadores portugueses dizem interessar mais aos britânicos, para nós, portugueses, ficarmos mal no retrato pela falta de segurança no “país turístico”.
Ignoraram ostensivamente que quem terá que desvendar o mistério é a Policia Judiciária portuguesa e não jornalistas de microfone em punho a encher chouriços em directo. E ao fazerem-no, esses profissionais não só criaram uma pressão a que dificilmente as autoridades portuguesas ficaram imunes como aterrorizaram o ou os eventuais raptores de Madeleine McCann. Do que se escreveu e se ouviu ficou claro que se a criança foi raptada, os autores do crime entraram em pânico com a repercussão do caso e devem ter tomada a opção “mais fácil”….Ali à beira mar, se me entendes, Fernando, estamos já a imaginar o trágico filme. A ser assim, vamos assistir a uma versão segunda do caso Joana. Alegados homicidas sem cadáver…Um golo na baliza da Polícia Judiciária. Que também falhou por aquela regra de esperar 48 horas até começar a investigar quando alguém desaparece. Mas com uma criança que tinha três anos na altura poder-se-ia esperar que tivesse ido dar uma volta porque não tinha sono e regressaria a casa após umas horas de diversão??
Se o caso tivesse sido atacado logo nessa noite, com o selamento do quarto e polícia em força de manhã a recolher indícios, outro galo cantaria, quer-me parecer a mim, um distante e preocupado observador…Assim, deu tempo para tudo. Se foi rapto, os autores puderam colocar-se a muitas milhas sem ser incomodados. Caso tenha havido homicídio no apartamento, hipótese em que me custa acreditar, mas não é de excluir, tiveram horas suficientes para limpar provas.
Como a polícia não faz milagres, acredito que só mesmo a denúncia poderá levar a quem cometeu o crime. Mas se nos lembramos do recém-nascido raptado do Hospital do Vale do Sousa que só foi descoberto um ano depois porque um familiar da autora do crime a denunciou, fica claro que a capacidade dos investigadores não vai além das limitações humanas e fica muito aquém do que se esforçam por fazer passar quando surgem na televisão.
Também não entendi porque razão só se lembraram dos famosos cães que detectam locais onde tenham estado cadáveres, mesmo que três meses depois, e os animais só tenham entrado em cena quando o assunto já tinha desaparecido dos noticiários. Deram-lhe gás de novo. Só isso. Agora faltam os testes de ADN ao sangue que detectaram no quarto mas que ninguém via nas paredes. Pode ser de um anterior hóspede do apartamento a quem tenha ocorrido um acidente e não me parece um indicador substancial que traga alguma mais valia aos investigadores. Oxalá me engane, Fernando, mas daqui por três meses vou estar aqui a falar-te do mesmo assunto sem ter dados novos nem saber da pequena Maddie, viva ou morta. Não é a primeira nem há-de ser a última de quem a polícia perde o rasto por completo. Sabes o que me parece, Fernando, no meio de tudo isto? Não há boa vontade dos investigadores que consiga ultrapassar o ímpeto tenebroso e assassino de alguns seres ditos humanos. Só aí encontro explicação para esta questão. E os pais vão ter que se “confortar” com os milhares (exagero?) de outros que vivem a tormenta toda uma vida de não saber o que aconteceu a um filho…
Um abraço pessimista.
António Martins Neves



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