Maddie – O primeiro ano

Recordado Fernando,
faz amanhã um ano que desapareceu de um apartamento no Algarve Madeleine McCann, uma menina britânica então com quatro anos, que dormia com os dois irmãos gémeos mais pequenos enquanto os pais jantavam com amigos num restaurante a 50 metros. E quase te podia repetir a carta que te escrevi dias depois. E outras que te fiz chegar sobre o caso. É que tudo está na mesma. A Polícia Judiciária não deixou transparecer qualquer evolução nas investigações, os pais voltaram para casa mas continuam a ser arguidos, o que faz sobre eles recair suspeitas, e o tema veio a perder gás, quase só recordado na altura do lançamento de livros sobre o que se terá passado na Praia da Luz. Como alguém já disse, o “caso” tornou-se num grande negócio.
Já que te falo em dinheiro, e para afastar dúvidas, deixa-me dizer-te que ontem ouvi na televisão um advogado da família McCann, o ex-bastonário das Ordem dos Advogados Rogério Alves, afirmar que o casal contratou para porta-voz um ex-assessor de imprensa do primeiro-ministro britânico chamado Clarence Mitchell porque lhe ofereceram um vencimento superior ao que recebia do Governo inglês.
Antes de começar a surgir literatura sobre o assunto, houve ainda dois momentos “altos” em todo o processo: a demissão do inspector que liderava as investigações, Gonçalo Amaral, que entretanto anunciou a sua saída da polícia e prometeu também ele um livro sobre o caso, e o reconhecimento pelo director da Judiciária, o magistrado Alípio Ribeiro, de que os seus homens poderiam não ter escolhido o caminho mais indicado para conduzir o delicado caso.
Agora, a propósito da efeméride, os motores voltaram a roncar e o circo mediático tornou a ser montado na Praia da Luz, perto de Lagos, onde já se ouvem residentes a queixarem-se que a visibilidade dada à localidade pela Comunicação Social só os prejudica, pela associação a uma situação negativa com a qual nada têm a ver.
Só para ficares com uma ideia do que vai voltar a acontecer, uma televisão portuguesa anunciou quarta-feira que ia passar em exclusivo uma reportagem de uma cadeia britânica para assinalar a passagem de um ano sobre o desaparecimento de Maddie, e um dia depois as outras duas passaram excertos de entrevistas com os pais da criança, que vão desenvolver e fazer render nos próximos dias. A SIC, por exemplo, já fez saber que vai voltar a apresentar o telejornal da localidade algarvia, como fizeram há um ano televisões portuguesas e britânicas.
Novidades? Nenhuma, Fernando. E não se prevê que surjam verdadeiras e importantes notícias sobre o caso tão depressa. Triste estória esta, que ameaça ter um final ainda mais trágico, se nunca se souber o que realmente aconteceu.

Um abraço cheio de cepticismo.

António Martins Neves