Má sorte nascer pássaro
Publicado por António Martins Neves 30 Dezembro 2007 em Portugal.
Ambientalista Fernando,
quero acreditar que essa matança de cagarras não voltará a repetir-se aí em Cabo Verde. Um realidade dessas tornada pública no mundo inteiro é difícil de se manter e mais ainda de se prolongar. É vergonha de mais para qualquer estado, e ainda mais democrático como é o caso. Confesso que nunca vi tais pássaros, mas ouvi-os à noite, nos Açores, esse “paraíso” na Terra que a maioria das pessoas desconhece. Numa terra fascinante chamada Lajes do Pico. Já tinha ouvido falar, mas nunca fora confrontado com a algazarra das cagarras, que nos Açores são aves marinhas com actividade apenas de noite. Essas daí, como são primas, não sei se têm hábitos nocturnos ou diurnos. Nem esclareci essa dúvida numa rápida investigação na Internet.
Lembro-me que havia uma espécie de marginal, umas árvores e um barulho infernal ao anoitecer. Eram elas. Nas Lajes do Pico, que parece uma terra de fadas mas existe mesmo e só tem, na prática, uma rua – a Direita- de casas tradicionais e muito bem cuidadas, as cagarras têm sempre voz presente – ou tinham há uns dez anos, quando lá estive.
Desconheço se matavam os pintos como sucede aí, mas duvido. Elas a viverem ali numa terra de baleeiros que deixaram de caçar baleias para passarem antes a mostrar os grandes mamíferos marinhos a quem quiser vê-los… não me parecem que vão incomodar uma ave, ainda por cima rara e em vias de extinção. É evidente que não tenho mais carinho pelas cagarras do que por outra espécie à beira de desaparecer, mas confesso-te que gosto de aves, das selvagens, das que voam livremente, e mais ainda das que vivem entre nós, nas cidades. Ou conseguem cumprir esse exercício da sobrevivência onde ela é bem difícil.
Uma vez fiquei quase a odiar um fulano por causa de um desses pássaros: um noitibó. Era adolescente e na frente da casa onde vivia na altura passavam uns cabos eléctricos para abastecer de energia as casas da rua. Impreterivelmente, aquele pássaro nocturno, mal o sol se punha, fazia de um daqueles cabos de electricidade o seu poiso predilecto. Mais palmo para lá, mais palmo para cá, lá estava ele todas as noites. E eu já me habituara e até lhe ganhara alguma afeição. Ele não se assustava com as pessoas nem com os carros que passavam na rua. Voava, dava as suas voltas, muito certamente para se alimentar, e lá estava de regresso ao fio eléctrico. Até um dia. Um produtor de porcos, que era também daqueles caçadores que dispara contra tudo o que mexe, passava sempre na rua ao anoitecer, de jipe. Vinha lá da pecuária e, obviamente, via o noitibó, descansadamente pousado no cabo eléctrico. Então não queres crer que um dia trouxe uma espingarda de pressão de ar e matou o animal?? Eu não vi, mas a minha mãe é que assistiu ao abate e depois contou-me do desfecho trágico daquela ave sobre a qual falávamos até frequentemente. Fiquei com uma espécie de ódio àquele porcariço que ainda hoje alimento! Que criatura primária, pior ainda que esses que vão aos ninhos matar as cagarrrinhas para comer aí em Cabo Verde. É que o noitibó, além de não ter qualquer utilidade gastronómica, é uma ave rara também e aquela atitude de o matar faz parte dos actos mais gratuitos de que me recordo terem sido praticados por alguém que integra um grupo a que normalmente tratamos por gente. Conhecia-o de vista, quase só, mas a partir desse dia, nunca mais lhe dirigi palavra nem lhe olhei para a tromba e só não o denunciei à polícia porque na altura não havia legislação que o penalizasse ou pelo menos predisposição das autoridades para a aplicar. Julgo. Acresce que eu era um adolescente e…isto aconteceu há uns 30 anos.
Na mesma onda, quando todos os dias se fala de espécies em perigo, contaram-me há dias que um caçador, ilegal nas horas vagas, matou no Verão passado pelo menos 18 melros que pousaram na amoreira que tem no monte. Por desporto? Para dar de comer a alguém com fome? Porque sim. Os pássaros deliciam-se com os frutos da árvore, ele construiu uma barraca lá de baixo, donde atira sem dó nem piedade. Não matou mais porque eles não apareceram. Ou melhor: acredito que se tivessem ido lá pousar na amoreira, teria matado todos os melros do mundo e arredores. E ficaria muito feliz e contente, na sua ignorância manchada de sangue de quem se acha muito sabedor na arte de devastar a natureza que lhe é indispensável, a ele e aos descendentes que tem.
Ainda nesta espécie de relato sobre os pássaros da minha vida, e como nem sempre tudo é mau, aqui em Lisboa soube de uma caso de um casal de melros que fez ninho e criou a prol a menos de dois metros da esplanada de uma restaurante onde eu ia frequentemente. Disseram-me quando o ninho já estava vazio e os juvenis crriam pela relva sob o olhar dos pais. Nasceram e cresceram ali a uma altura em que eu lhes chegava facilmente e passei dezenas de vezes a menos de um metro. Os conhecedores daquele “segredo”, gente mais avisada do que os patifes anteriores, nunca contaram a ninguém e a natureza lá fez o seu caminho. Belo exemplo!
Antes de terminar, deixa-me confessar-te que aqui em casa tenho o privilégio de estar sentado à mesa, a tomar o pequeno-almoço ou a almoçar e a ver os melros nos quintais, deslocando-se no seu característico vou “bambo”, como se percorressem uma linha que desce e depois sobe até ao lugar onde pousam, como bem os conheces. Um belo sinal de vida, a contrastar com esse selo de morte usado aí com as cagarras, ou protagonizado aqui pelo carrasco do noitibó ou pelo dizimador de melros a quem a GNR nunca incomodou. Resta-nos, sempre e sempre, a esperança de que a lei se cumpra. Aí, aqui, em todo o lado. E, mais importante que tudo, que as pessoas entendam que a variedade de vida é o que suporta a sua existência. Porque senão morrem. Depois não digam que não foram avisadas, não é Fernando?
Um bio-abraço.
António Martins Neves



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