Loucura!!
Publicado por António Martins Neves 19 Abril 2008 em Portugal.
Lúcido Fernando,
visto da Madeira, pelo olhar do homem que domina a região há 30 anos, o mundo está louco. Escaparão os seus comparsas políticos do arquipélago, mas mais ninguém está livre de ser acusado de défice de juízo. Confesso que temo pela clarividência de alguém que vejo a acusar todos os outros de algo de que ele surge assim quase como o único “libertado”.
Isto de que venho falar-te podia não passar de uma brincadeira se acontecesse num bairro, entre vizinhos que andam às turras e se insultam porque chove ou o sol fica demasiado quente. Aqui, a coisa complica-se, tanto mais ainda quando se ouviu o presidente do Governo da Região, João Jardim, usar a palavra - que considero ser proferida, se não com tom ofensivo, pelo menos sobranceiro e arrogante. Primeiro foi a oposição no Parlamento Regional:”Uns loucos”, atirou Alberto João para justificar o que apresentou como uma sua decisão de não realizar uma sessão solene naquela câmara com a presença do Presidente da República, Cavaco Silva, que esta semana concretizou uma visita de seis dias à Região Autónoma. Ao eleito do PND, chamou-lhe mesmo “fascista”.
Disse ele que a realização de um acto, que é normal em qualquer regime democrático, daria uma “péssima imagem” do arquipélago, aludindo ao que seriam as prestações dos deputados que não são do seu partido, e isso iria até ter reflexos no turismo da região, que seria afectado se a cerimónia se realizasse. Não sei porque razão, mas o Presidente da República “acatou” e não fez questão que a tal cerimónia, como já sucedeu em visitas presidenciais aos Açores, por exemplo, não se concretizasse, acabando por ouvir os representantes de alguns partidos com assento parlamentar em audiências particulares no hotel onde ficou alojado. Fez mal e ouvi criticarem-no por isso. Como mais alto magistrado da Nação devia ter feito valer a importância do cargo para o qual foi eleito directamente. E Jardim não tinha nada que anunciar uma decisão que caberia ao presidente da Assembleia Regional, donde emana o Governo a que ele preside. Ficou claro que na Madeira as regras do regime foram deitadas ao mar e é a vontade de um que impera. E nem o Presidente da República vai contra. Não ouvi ninguém afirmá-lo por aqui, entre os observadores da política nacional, mas o alcance da decisão não teve nada a ver com saúde mental, mas tão simplesmente com o imperativo de evitar que o país assistisse, sem censura, aos discursos críticos dos opositores do PSD madeirense no Parlamento local. Com a imprensa nacional atrás de Cavaco Silva, era limpinho que o momento ia ser aproveitado pelos outros partidos para criticar publicamente, perante o Chefe de Estado e as televisões nacionais, o resultado de uma presidência de três décadas. Assim, Cavaco Silva disse que estava obrigado ao “direito de reserva” depois de ouvir a oposição no conforto de cinco estrelas.
Três dias depois, a loucura foi outra vez o argumento repetido por Alberto Jardim para criticar o anúncio feito por um seu companheiro de partido, José Pedro Aguiar-Branco, de que era candidato à presidência do PSD, desafiando o líder Luís Filipe Menezes, que no mesmo dia lhe facilitou a vida, dizendo demitir-se do cargo donde antes dissera não sair nem à bomba. É um “louco”, viu-se na televisão Jardim atirar para alguém num interregno da visita presidencial, aludindo a Aguiar-Branco, um deputado que foi ministro da Justiça num Governo do PSD. Dissera antes que é um “burguês do Porto”, que o partido dele tem as raízes no povo e não em estratos económicos elevados da sociedade. Em suma, que não contasse com os votos do PSD madeirense se avançasse mesmo para a presidência do maior partido na oposição a nível nacional. Quando te escrevo tudo se alterou, e deve haver já muito mais gente com o epíteto de “louco”. Quero, no entanto, descansar-te, porque a loucura não se generalizou por aqui. Parece-me antes que se concentrou, para que não restem dúvidas de todas por uma vez sobre quem está verdadeiramente louco.
Um descontraído abraço.
António Martins Neves



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