Distante Fernando,
já ouviste falar sobejamente do tema, mas gostaria de te fazer este desabafo que anda a remoer-me a consciência de há semanas a esta parte: Lisboa, a terra onde residimos, vai ter provavelmente a maior concentração de ditadores por metro quadrado já conseguida numa cidade do dito mundo ocidental. Será a 8 e 9 de Dezembro na Cimeira Europa-África, um dos eventos mais badalados da presidência portuguesa da União Europeia (UE), que finda a 31 de Dezembro.
Os governos da União, a imprensa e a opinião pública, (muito pouco neste caso, como em tudo o que tem a ver com a UE) têm-se ocupado com a oposição do Reino Unido a que o presidente do Zimbabué, Robert Mugabe, participe no encontro. Quanto aos líderes dos restantes países africanos, que devem ser quase uns 50, ninguém levantou qualquer obstáculo à vinda a Portugal.
Mugabe é de facto um tirano, meio enlouquecido, obcecado com o poder, que atolou um dos países mais ricos de África numa miséria de que quase ninguém dá a verdadeira dimensão porque ele também se encarregou de perseguir os jornalistas e quase impede o mundo de saber o que passa lá. E os ingleses têm-no ainda mais de ponta porque ele decidiu nacionalizar as grandes fazendas do país, propriedade de fazendeiros…ingleses, pessoas que, pelo que se narra, eram agricultores a sério e sabiam o que estavam a fazer. Nas mãos dos empregados, as grandes e produtivas fazendas tornam-se rapidamente em vastidões de capim.
O primeiro-ministro inglês, Gordon Brown, insiste em não esquecer o episódio, mais as perseguições, ameaças e tiranias que fizeram aos brancos do seu país (ou descendentes, porque muitos nasceram lá) e diz que não se senta à mesma mesa de Mugabe e que portanto não virá a Lisboa.Será o único líder a não vir a Lisboa, pelo que se noticia. Os africanos vêm todos.
Este episódio seria relevante se Mugabe fosse o único tirano e ditador existente na actualidade em África. Se só no Zimbaué se violassem direitos humanos, ou  houvesse repressão e se aniquilassem pessoas por não venerarem os respectivos líderes, o Mundo caminharia a passos certos para se tornar num sítio frequentável. O pior é que não é nada assim.
Toma nota, Fernando: vão estar em Lisboa o presidente do Sudão, o mais extenso país de África, que subiu ao poder por um golpe de estado e impôs uma ditadura que averba no currículo actos tão importantes como albergar essa sobejamente conhecida figura que dá pelo nome de Bin Laden e tornar a província do Darfur num campo de morte em que só recentemente os olhares começaram a reparar, mas o martírio não tem fim à vista.
Da Líbia, o senhor Kadafi tem provas dadas que escuso de te recordar, o vizinho tunisino também dirige um regime de fachada onde a liberdade só tem expressão na palavra. Hosni Mubarak, o parece que eterno presidente do Egipto, embora eleito, é outro bom exemplo para contrapôr a Mugabe. Um democrata por excelência, asseguram as diplomacias europeias. Desce-se um pouco mais, passa-se pela Eritreia onde um homem que conseguiu a independência do país nunca mais largou o poder que prometera deixar, com eleições e tal e tal. Da Somália, não faço ideia quem foi convidado, porque não tem governo (ou se tiver é de fachada) e é uma terra sem rei nem roque há muitos anos. No Chade, bom…Do Níger…A República Democrática do Congo? Bah, pior ainda. A Nigéria? Riqueza e miséria de mão dadas. O país mais populoso e um dos mais ricos de África, mas também nos tops dos mais pobres. E outros e outros e outros…onde se incluem Angola, seguramente, onde a democracia não existe, como está provado, e a Guiné-Bissau, onde o presidente Nino Vieira vai ao médico a Paris mas não há mais que água – quando há!-  e algumas compressas nos hospitais.
Tudo gente que se distingue de Mugabe, não achas, Fernando? Se não forem os teus hospedeiros caboverdianos, a Namíbia, a África do Sul, a custo, e Moçambique, muito puxado pelas orelhas, a cimeira deveria ter unas quatro ou cinco participantes africanos, se atendermos que Marrocos até não está mal no Continente e o Senegal tem um passado de que se pode orgulhar, mais do que do presente.
Assim não. A hipocrisia da diplomacia e os interesses económicos atiram os direitos básicos das pessoas para a pasta das questões dispensáveis e os nossos governantes enchem a boca com uma cimeira que não tem qualquer motivo de orgulho. Muito menos para a Europa, dita guardiã da democracia e dos direitos humanos. Que vergonha, Fernando…

Um frontal abraço.

António Martins Neves