Lisboa recebe concentração de ditadores africanos
fechado Publicado por António Martins Neves 18 Novembro 2007 em Portugal.
Distante Fernando,
já ouviste falar sobejamente do tema, mas gostaria de te fazer este desabafo que anda a remoer-me a consciência de há semanas a esta parte: Lisboa, a terra onde residimos, vai ter provavelmente a maior concentração de ditadores por metro quadrado já conseguida numa cidade do dito mundo ocidental. Será a 8 e 9 de Dezembro na Cimeira Europa-África, um dos eventos mais badalados da presidência portuguesa da União Europeia (UE), que finda a 31 de Dezembro.
Os governos da União, a imprensa e a opinião pública, (muito pouco neste caso, como em tudo o que tem a ver com a UE) têm-se ocupado com a oposição do Reino Unido a que o presidente do Zimbabué, Robert Mugabe, participe no encontro. Quanto aos líderes dos restantes países africanos, que devem ser quase uns 50, ninguém levantou qualquer obstáculo à vinda a Portugal.
Mugabe é de facto um tirano, meio enlouquecido, obcecado com o poder, que atolou um dos países mais ricos de África numa miséria de que quase ninguém dá a verdadeira dimensão porque ele também se encarregou de perseguir os jornalistas e quase impede o mundo de saber o que passa lá. E os ingleses têm-no ainda mais de ponta porque ele decidiu nacionalizar as grandes fazendas do país, propriedade de fazendeiros…ingleses, pessoas que, pelo que se narra, eram agricultores a sério e sabiam o que estavam a fazer. Nas mãos dos empregados, as grandes e produtivas fazendas tornam-se rapidamente em vastidões de capim.
O primeiro-ministro inglês, Gordon Brown, insiste em não esquecer o episódio, mais as perseguições, ameaças e tiranias que fizeram aos brancos do seu país (ou descendentes, porque muitos nasceram lá) e diz que não se senta à mesma mesa de Mugabe e que portanto não virá a Lisboa.Será o único líder a não vir a Lisboa, pelo que se noticia. Os africanos vêm todos.
Este episódio seria relevante se Mugabe fosse o único tirano e ditador existente na actualidade em África. Se só no Zimbaué se violassem direitos humanos, ou houvesse repressão e se aniquilassem pessoas por não venerarem os respectivos líderes, o Mundo caminharia a passos certos para se tornar num sítio frequentável. O pior é que não é nada assim.
Toma nota, Fernando: vão estar em Lisboa o presidente do Sudão, o mais extenso país de África, que subiu ao poder por um golpe de estado e impôs uma ditadura que averba no currículo actos tão importantes como albergar essa sobejamente conhecida figura que dá pelo nome de Bin Laden e tornar a província do Darfur num campo de morte em que só recentemente os olhares começaram a reparar, mas o martírio não tem fim à vista.
Da Líbia, o senhor Kadafi tem provas dadas que escuso de te recordar, o vizinho tunisino também dirige um regime de fachada onde a liberdade só tem expressão na palavra. Hosni Mubarak, o parece que eterno presidente do Egipto, embora eleito, é outro bom exemplo para contrapôr a Mugabe. Um democrata por excelência, asseguram as diplomacias europeias. Desce-se um pouco mais, passa-se pela Eritreia onde um homem que conseguiu a independência do país nunca mais largou o poder que prometera deixar, com eleições e tal e tal. Da Somália, não faço ideia quem foi convidado, porque não tem governo (ou se tiver é de fachada) e é uma terra sem rei nem roque há muitos anos. No Chade, bom…Do Níger…A República Democrática do Congo? Bah, pior ainda. A Nigéria? Riqueza e miséria de mão dadas. O país mais populoso e um dos mais ricos de África, mas também nos tops dos mais pobres. E outros e outros e outros…onde se incluem Angola, seguramente, onde a democracia não existe, como está provado, e a Guiné-Bissau, onde o presidente Nino Vieira vai ao médico a Paris mas não há mais que água – quando há!- e algumas compressas nos hospitais.
Tudo gente que se distingue de Mugabe, não achas, Fernando? Se não forem os teus hospedeiros caboverdianos, a Namíbia, a África do Sul, a custo, e Moçambique, muito puxado pelas orelhas, a cimeira deveria ter unas quatro ou cinco participantes africanos, se atendermos que Marrocos até não está mal no Continente e o Senegal tem um passado de que se pode orgulhar, mais do que do presente.
Assim não. A hipocrisia da diplomacia e os interesses económicos atiram os direitos básicos das pessoas para a pasta das questões dispensáveis e os nossos governantes enchem a boca com uma cimeira que não tem qualquer motivo de orgulho. Muito menos para a Europa, dita guardiã da democracia e dos direitos humanos. Que vergonha, Fernando…
Um frontal abraço.
António Martins Neves

