Laranjada quente

Vivido Fernando,
arrisco que também bebeste laranjadas quentes. Sei que já nem há tal bebida e abundam os frigoríficos, mas esse espírito acutilante formou-se no tempo em que predominavam aquelas bebidas amareladas e as baixas temperaturas eram mais garantidas por um poço do que pela electricidade. Ocorreu-me isto tudo há dias quando passei num local daqueles que não deixam marcas mas ficam registados na memória. Porque bebi lá laranjadas quentes.
Só começava a sentir “novo mundo” quando chegava a Beja. O autocarro parava em Ferreira, mas só na cidade começava a sentir o respirar da viagem. Ia com a minha madrinha. Na capital do Baixo Alentejo terminava a primeira etapa. Mudava-se de autocarro, de transportadora, para mim era como se fosse quase de país. Repara que tinha uns cinco anos quando isto me aconteceu pela primeira vez. Havia um intervalo que parecia não ter fim. Calculo que fossem umas duas horas. Depois lá estava ela, a camioneta, onde o cobrador de bilhetes se atarefava em acomodar no longo tejadilho caixas, caixotes, malas e tudo o que os muitos passageiros acarretassem. Depois cobria tudo com uma rede para não ficarem pelo caminho. Entrávamos naquela viatura escura, eu escolhia um lugar à janela, inevitavelmente, e começava a “odisseia”.  O roncar da máquina pelo meio dos azinhais, umas rectas iniciais, curva aqui, curva ali, os campos dourados pelo Estio até a estrada enrolar à chegada a Mértola. Parar era como suspirar depois de uma caminhada sob o sol de rachar. Saíam passageiros, entravam outros, havia uns vendedores de gelados quase a derreter. Era uma escala a sério num voo sempre de descoberta.
Carga para o chão, carga para cima e lá íamos nós de novo, ali já como uma serpente, curva e contra-curva como ainda hoje. Só me lembro de uma paragem breve no Espírito Santo e depois era o coração que dominava. Está quase, está quase, a minha madrinha ou outro passageiro tocavam a campainha para alertar o condutor daquele quase cavalo-de-ferro e lá estacava o autocarro no meio de pouco mais de nada. Era muita desolação para os meus olhos, que vinha de mais próximo do mar. Sacos na mão, carregados para férias, atravessávamos a estrada. Respirava fundo, estava quase. Seriam umas cinco da tarde. Na altura a temperatura era uma coisa só do corpo, mas na semana passada, quando me recordei disto, ao passar naquele sítio, estavam 35 graus. Depois de quase um dia de viagem faltavam mais cinco quilómetros… a pé. Era aguentar firme e sem hesitações. O único alívio permitido estava ali a escassos metros do asfalto: uma barraquita de madeira com ar a condizer com o sequeiro envolvente. O que havia ali? Só me lembro de umas laranjadas, de marca desconhecida – cresci a beber refrigerantes Foca, como presumo que também tenhas feito. Aquelas ali eram novidade. Claro que eu queria uma. Creio que nalgumas das vezes a apetecida era retirada de um balde de água onde supostamente estaria mais fresca. Engano. Quando passo por lá ainda recordo aquele sabor quase a escaldar, mas que ficou gravado para sempre. As laranjadas quentes do Joaquim Valentim. Se calhar, conto-te o resto da viagem um destes dias.

Um abraço de viajante.
António Martins Neves


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