José Sócrates Pinto da Costa
Publicado por António Martins Neves 14 Março 2008 em Portugal.

Cafeinado Fernando,
fiquei verdadeiramente agradado com a forma como assinalas-te que a nossa troca de correspondência já leva uma ano. Um “vício prazenteiro”, diria alguém superiormente autorizado a afirmá-lo. Como não estou nesse grupo, resta-me manifestar o quanto apreciei o modo como quiseste deixar vincada a dita efeméride. Não vou responder nesse tom tropical e descontraído, como gostaria, nem falar de coisas agradáveis e belas, como prefiro. Quero antes ser muito politicamente incorrecto nos tempos que correm e aproveitar o lastro que este ano me deu para te transmitir uma ideia que me anda a remoer há alguns dias. Vou falar-te das semelhanças - senta-te, caso estejas de pé – que encontro entre José Sócrates e Jorge Nuno Pinto da Costa.
Nem mais, nem menos. Acho que essas duas polémicas figuras têm muito em comum e apesar de todas as diferenças que os distinguem, muitas outras os unem. Antes de tudo deixo-te aqui clara a minha declaração de interesses na matéria: não votei em José Sócrates para primeiro-ministro e estou longe de ser adepto do Futebol Clube do Porto. Diria que carrego comigo ainda uns vestígios de simpatia pelo Sporting, que se dissipam a cada dia que passa, tal como sucede com o fenómeno futebolístico.
O exercício que te venho apresentar não é opinativo. Tenta ser factual. Como não tenho memória curta, recordo-me do FC Porto ganhar tudo a que havia para ganhar a nível mundial pela menos uma vez, e de ter vencido, de seguida, cinco campeonatos nacionais e mais não sei quantas taças. Corrige-me se estiver errado. Este ano vai com alguns 14 pontos de avanço sobre o segundo classificado, o Benfica, e é de facto a melhor equipa a disputar a primeira Liga. Não venham com árbitros nem com elaboradas teorias conspirativas. No campo, não há forma de derrotar a equipa das Antas. Isto tudo aconteceu, e acontece, sob a presidência dessa figura que liberta polémica por todos os poros. Nas revistas cor-de-rosa pela sua vida amorosa, na imprensa desportiva pela sua postura muitas vezes arrogante e até mal-criada, pelos amuos e boicotes, pelo desrespeito pelas regras do bom-senso e das responsabilidades públicas que alguém na sua posição deveria ter como orientadoras, na imprensa tradicional pelas questões com a Justiça. O homem não é de atender a regras e acha que deve fazer o seu caminho e depois logo se vê…Verdade, verdadinha é que continua a manter na crista da onda a melhor equipa de futebol nacional, como sucedeu em muitos dos mais de 20 anos que leva como presidente do FC Porto. Acusações daqui, boatos dali, o certo é que os tribunais nunca emitiram nenhuma condenação. Um caso de estudo.
O primeiro-ministro José Sócrates é outra figura que coloco na vitrina ao lado do “rei do Norte”. Não pelos resultados obtidos com a sua governação, que temo nunca chegarmos a observar, mas por transmitir uma inabalável convicção naquilo que afirma e defende. E na maioria dos casos tendo a concordar com ele, embora em muito mais situações me pareça que o homem viva desfasado da realidade. Inquestionável é que, como Pinto da Costa, continua na crista da onda e não dá mostras de poder cair da prancha. Ainda hoje o vi na SIC, a tentar falar da sua vida menos pública, e até no titubear e nas hesitações parecia o mais comum dos cidadãos. Não aquela fera que arrasa tudo e quase todos nos debates parlamentares uma tarde inteira, se for caso disso, sem uma hesitação nem um aaaa no discurso.
Se dúvidas houver sobre a actuação do chefe do Governo, caem quando se olha para as sondagens ao fim de três anos de governação. O máximo a que chegam é a uma nova vitória do seu partido sem a maioria absoluta que detém agora. Um desgaste quase invisível, quando comparado com os anteriores governos do passado recente. Manifestações de 100 mil professores, que não mostram intenção de enterrar o machado de guerra, a função pública nas ruas, suspeitas sobre a forma como se licenciou em engenharia, dúvidas maiores sobre projectos de edifícios que assinou antes de ser deputado…a tudo o homem parece resistir. Por este caminho vamos ter que o aguentar mais quatro anos. Não espero nada que a comparação com Pinto da Costa signifique que Sócrates seja outro eucalipto que seque tudo à volta e vá ficar 20 anos no poder. Impossível, que isto não é a ilha da Madeira. Agora que quando se tem como principal concorrente alguém como Luís Filipe Menezes, o presidente do PSD que numa semana diz não merecer ainda ser Governo e na seguinte pede despudoradamente uma maioria absoluta aos eleitores, a coisa fica complicada…para nós cidadãos contribuintes que queremos descolar da cauda da Europa e não vimos a tal luz ao fundo do túnel.
Sei que já concluíste que estou a comparar duas figuras que não terão muito em comum. Discordo. São inabaláveis nas suas convicções. Um tem trabalho apresentado, vencendo jogos, campeonatos, taças. O outro continua a fazer crer que acredita naquilo que diz, que conseguiu arrumar os poucos tarecos que tem na casa, afirma sem pestanejar que continua a trabalhar para melhorar o nosso futuro e a convencer disso a maior parte dos eleitores, depois de impor três anos de aperto na vida da maioria de nós. Se a política tivesse ainda mais a ver com o futebol, Sócrates devia ir liderar um clube de futebol, que seria ganhador pela certa. Já não defendo que Pinto da Costa alguma vez fosse primeiro-ministro. Aí só mesmo se compartilhasse o gabinete com o procurador-geral da República. Mas sobre isto, o futuro dirá se estou certo ou estou errado…Cada macaco no seu galho!
Um distanciado abraço.
António Martins Neves



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