Jornalismo, suor e lágrimas
2 comentários Publicado por António Martins Neves 13 Maio 2008 em Portugal.
Repórter Fernando,
eis-me regressado mas sem vontade de me levantar às quatro da madrugada e muito menos de corridas matinais, como sugeres. Aceito e cumpro o conselho do banho, mas em circunstâncias bem diferentes e mais exigentes, porque não tenho o privilégio de morar junto à praia. Firme, isso sim, no propósito de por a nossa escrita em dia. Mal sabia eu que, quando voltasse a sentar-me para retomar a correspondência, desta vez para te deixar algumas impressões de um pequeno livro que li, depararia com mais um relato desse teu espírito de repórter nato, que mergulha a fundo na realidade para a compreender e relatar, nem que isso implique andar pela praia às seis da manhã…
Agora mais a sério: as cerca de 80 páginas que li de um fôlego apresentam um resumo condensado da massa de que devem ser feitos os jornalistas. Faço questão que leias “Os Cínicos Não Servem Para Este Ofício”, da autoria de um dos maiores repórteres que por cá andaram, o polaco Ryszard Kapuscinski, falecido em Janeiro de 2007, aos 74 anos. Julgo que já te contei como ele levou a sério o seu trabalho, embebendo-se nas diversas realidades dos muitos países onde trabalhou. Recordo-te apenas o caso em que, também em África como tu, mas na Nigéria, foi viver para um dos bairros mais pobres e miseráveis da capital do país, pois só assim achava que poderia compreender e reportar factos com o mínimo de consistência e conhecimento de causa. “É um erro escrever sobre alguém com quem não se partilhou pelo menos um fragmento da vida”. Uma versão romântica só na aparência, porque, ao contrário, tem tanto de eficaz como de exigente a todos os níveis.
Numa sessão de um congresso em Itália (1999), moderado pela jornalista Maria Nadotti, Kapuscinski dizia que o principal requisito da profissão é “aceitar sacrificar uma parte de nós” para praticar um “ofício que toma toda a nossa vida” e com o qual convivemos 24 horas por dia. Quem discordar e optar por outros caminhos de maior facilidade fará parte dos 90 por cento de jornalistas que desempenha a actividade ao “nível artesanal”, que “não difere em nada de um trabalho comum como o de sapateiro ou de jardineiro”. O outro grupo, dos restantes dez por cento, situa-se num “nível criativo”, onde o repórter coloca a sua identidade e as ambições. É um patamar que “requer toda a nossa alma, dedicação e todo o nosso tempo”.A isto acrescenta a actualização e o estudo constantes como obrigações fundamentais.
“O nosso trabalho consiste em indagar e em descrever o mundo contemporâneo que está em permanente, profunda, dinâmica e revolucionária transformação. De um dia para o outro temos de acompanhar tudo isto e ser capazes de prever o futuro”.
Tudo somado não garante um futuro brilhante, se falarmos de bens materiais, assegura a sua longa experiência. “Quase todos os jornalistas principiantes são pessoas pobres e, durante vários anos, não gozam de uma situação financeira muito próspera”, numa “profissão com uma estrutura feudal” em que “sobe-se na carreira com a idade e leva o seu tempo”. Há os que desistem, depois de trabalharem anos com magras retribuições, muitas vezes ficando mesmo sem emprego e em bastantes não conseguindo encontrar outro. Mas “tudo isto faz parte da nossa profissão”, afirma em jeito de conforto, recomendando aos colegas mais novos:”sejam pacientes e trabalhem”.
A compensação? “Os nossos leitores, ouvintes e telespectadores são pessoas muito justas que rapidamente reconhecem a qualidade do nosso trabalho e com igual rapidez começam a associá-lo ao nosso nome; sabem que esse jornalista lhes dará um bom produto”.
Deixo-te estas aparas que me sobressaíram das muitas ideias com que nos legou um homem por o qual confesso a minha grande admiração. Pela vida preenchida e vivida e pela capacidade de a relatar e sintetizar, como se espera de um jornalista. As restantes teorias lerás depois na obra.
Um abraço profissional.
António Martins Neves



Ó António, não te apetece rir quando olhas em volta?. E não, não me refiro ao teu local de trabalho.
Ricardo,
já me ri muito! Agora já começo a não achar graça nenhuma a essa realidade quase universal. Deviam ensinar aos futuros jornalistas, como não fizeram à maioria dos actuais, que o objectivo maior não é apresentar o telejornal…E que dá muito trabalho e pouco retorno salarial. Mas no fim lá vem a enorme satisfação pelo esforço de tentar – por vezes conseguir mesmo – mostrar algumas partes do mundo tal como elas são.
Um abraço.