Evolucionista Fernando,
Uma entidade divina chegou aqui há terra, há 6.000 anos, estalou os dedos e aparecemos nós, os humanos. É o que dizem os fundamentalistas cristãos americanos que querem ensinar esta tese aos filhos na escola. Só que escondem que esse deus, depois, foi-se embora  e nunca mais quis saber disto para nada, pelo que se observa. Aconteceu pior do que um jardineiro que planta uma flor e nunca mais quer saber dela. O mais certo é morrer, mas também pode sobreviver pelos seus meios e tornar-se bravia e indomável.
Já te tenho dito, noutras cartas, que me preocupa o caminho por onde está a ser conduzido o pensamento humano – e o destino que traça.

Mas, desta vez, fiquei a pensar mais que o normal numa questão que me foi colocada por um amigo e jornalista, o João Vasco Almeida, num programa semanal informativo de rádio onde colaboro, dando umas opiniões sobre temas mais ou menos actuais.
Um disparate absoluto, digo-to a ti e a quem quiser ouvir. Apetece-me até caricaturar tamanho absurdo. Tudo o que se sabe, porque milhares de cientistas  passaram as vidas deles a estudar como é que chegámos a este estado, vai parar ao balde do lixo porque umas almas ditas caridosas decidiram que não, que afinal estamos cá por vontade de um tal deus e todas as outras teorias desenvolvidas sobre a evolução, nomeadamente o que concluiu Charles Darwin, que deu um passo de gigante no combate ao obscurantismo em que a religião teimava em manter a humanidade.
Este retrocesso no pensamento só podia vir dos Estados Unidos, onde uma malta a quem muito deve e com quem muito se dá o presidente George W. Bush, comendo da mesma gamela, decidiu enveredar por esse caminho e atribuir à religião a explicação para tudo, incluindo os disparates para onde têm atirado o mundo.
São os evangélicos ditos criacionistas e mandam à fava tudo o que seja ciência e o saber que lhe está associado. Obscurantismo, trevas, Idade Média? É evidente que é para aí que eles puxam. Mas com muito mais dinheiro do que nessa altura,  quando o país deles era uma terra (presumo que honrada) ocupada pelos seus legítimos e naturais habitantes: os índios. Armas para cá, guerras para lá, essa gente é daquela  que depois vai ao domingo à missa, confessa (será?) os pecados que fez durante a semana e sai de lá a assobiar, aleviadíssima, e a fazer cálculos às contas bancárias. O perdão, Fernando, o perdão é que nos trama. Matamos e ferimos mas somos muito crentes e temos uma generosidade que não nos cabe no coração. A religião é que guia os nossos passos, anunciam eles.
Bom, fellizmente isto passa-se lá do outro lado do Atlântico e não tem ponta de risco de alastrar cá por estas bandas. É que de fundamentalismos estamos nós fartos e esse é o pior diabo que pode bater a qualquer porta. Seja ele muçulmano, cristão, hindú ou de outra religião qualquer. A grande questão e o que verdadeiramente (onde já ouvi esta expressão até à exaustão?) me preocupa é que por causa dessa gente que usa palas nos olhos como os animais de carga estamos nós condenados a que nos rebente o chão debaixo dos pés a toda a hora. Se calhar, eles têm razão e isto (o Mundo) é mesmo para acabar e só estão a cumprir e a trabalhar para esse objectivo. Sempre com muito dinheiro claro, que, não sei em que bíblia o leram, o dinheiro é que lhes comanda a vida. Deve ser para o levarem para a cova.
Certo e seguro é, que pelo que já ouvi e li, o nosso tetraavô não nasceu de um estalar de dedos nem foi nenhum raio que o pariu.

Um abraço muito ateu.
António Martins Neves