Humanidade surgiu de um estalar de dedos?
Publicado por António Martins Neves 28 Outubro 2007 em Portugal.
Evolucionista Fernando,
Uma entidade divina chegou aqui há terra, há 6.000 anos, estalou os dedos e aparecemos nós, os humanos. É o que dizem os fundamentalistas cristãos americanos que querem ensinar esta tese aos filhos na escola. Só que escondem que esse deus, depois, foi-se embora e nunca mais quis saber disto para nada, pelo que se observa. Aconteceu pior do que um jardineiro que planta uma flor e nunca mais quer saber dela. O mais certo é morrer, mas também pode sobreviver pelos seus meios e tornar-se bravia e indomável.
Já te tenho dito, noutras cartas, que me preocupa o caminho por onde está a ser conduzido o pensamento humano – e o destino que traça.
Mas, desta vez, fiquei a pensar mais que o normal numa questão que me foi colocada por um amigo e jornalista, o João Vasco Almeida, num programa semanal informativo de rádio onde colaboro, dando umas opiniões sobre temas mais ou menos actuais.
Um disparate absoluto, digo-to a ti e a quem quiser ouvir. Apetece-me até caricaturar tamanho absurdo. Tudo o que se sabe, porque milhares de cientistas passaram as vidas deles a estudar como é que chegámos a este estado, vai parar ao balde do lixo porque umas almas ditas caridosas decidiram que não, que afinal estamos cá por vontade de um tal deus e todas as outras teorias desenvolvidas sobre a evolução, nomeadamente o que concluiu Charles Darwin, que deu um passo de gigante no combate ao obscurantismo em que a religião teimava em manter a humanidade.
Este retrocesso no pensamento só podia vir dos Estados Unidos, onde uma malta a quem muito deve e com quem muito se dá o presidente George W. Bush, comendo da mesma gamela, decidiu enveredar por esse caminho e atribuir à religião a explicação para tudo, incluindo os disparates para onde têm atirado o mundo.
São os evangélicos ditos criacionistas e mandam à fava tudo o que seja ciência e o saber que lhe está associado. Obscurantismo, trevas, Idade Média? É evidente que é para aí que eles puxam. Mas com muito mais dinheiro do que nessa altura, quando o país deles era uma terra (presumo que honrada) ocupada pelos seus legítimos e naturais habitantes: os índios. Armas para cá, guerras para lá, essa gente é daquela que depois vai ao domingo à missa, confessa (será?) os pecados que fez durante a semana e sai de lá a assobiar, aleviadíssima, e a fazer cálculos às contas bancárias. O perdão, Fernando, o perdão é que nos trama. Matamos e ferimos mas somos muito crentes e temos uma generosidade que não nos cabe no coração. A religião é que guia os nossos passos, anunciam eles.
Bom, fellizmente isto passa-se lá do outro lado do Atlântico e não tem ponta de risco de alastrar cá por estas bandas. É que de fundamentalismos estamos nós fartos e esse é o pior diabo que pode bater a qualquer porta. Seja ele muçulmano, cristão, hindú ou de outra religião qualquer. A grande questão e o que verdadeiramente (onde já ouvi esta expressão até à exaustão?) me preocupa é que por causa dessa gente que usa palas nos olhos como os animais de carga estamos nós condenados a que nos rebente o chão debaixo dos pés a toda a hora. Se calhar, eles têm razão e isto (o Mundo) é mesmo para acabar e só estão a cumprir e a trabalhar para esse objectivo. Sempre com muito dinheiro claro, que, não sei em que bíblia o leram, o dinheiro é que lhes comanda a vida. Deve ser para o levarem para a cova.
Certo e seguro é, que pelo que já ouvi e li, o nosso tetraavô não nasceu de um estalar de dedos nem foi nenhum raio que o pariu.
Um abraço muito ateu.
António Martins Neves



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