Horror

Foto APAIndignado Fernando,
compreendo perfeitamente a tua revolta e calculo que não seja mesmo nada fácil lidar com essas situações que relatas. Calmo como és, não consigo imaginar como seria eu a lidar com esse modo de estar na vida que perdura aí. Pode não ser admissível, nem sequer compreensível. Só que desaparece quando nos surge um cenário como o que atira para as trevas um dos países que apresenta dos melhores indicadores de nível de vida em todo o Mundo. Já percebeste que venho falar-te da Áustria e do que me perturba saber que um país assim, que funciona, bem organizado, apontado como exemplo dos avanços da civilização, origine monstros como este agora descoberto que manteve a própria filha fechada numa cave 24 anos, a violou e teve dela sete filhos. Se tudo fosse comparável, descer as escadas de vela acesa porque os vizinhos ignoram o que é viver num prédio e se acham espertalhaços em não pagar o condomínio seria uma festa de arromba.
Sabedor de algumas agruras que te atormentam, e solidário contigo, gostaria de te divertir e te contar boas histórias, que te dessem ânimo e ajudassem a ultrapassar esse quotidiano mais agreste do que o vivido aqui. Mas caem-nos árvores no caminho que não podemos ignorar. Temos que as ultrapassar porque não há outro modo de seguir em frente. O caso do austríaco Josef Fritzl é um desses. Provoca tremores, apertos de estômago, um desconforto e uma revolta indescritíveis, misturados com compaixão pelas vítimas, maior ainda por serem todas do seu sangue, uma revolta pelo sistema que permite este terror todo durante um quarto de século sem dar por ele, tudo agravado por um descrédito na história até agora contada de que mais ninguém sabia o que se passava, para além do carrasco e das vítimas.
Um série de coincidências fez com que a Áustria seja o país da Europa onde estive mais vezes, depois de Espanha. Realizavam-se lá sempre aqueles encontros entre timorenses pró-independência e defensores da anexação indonésia promovidos pelas Nações Unidas quando eu acompanhava a questão de Timor-Leste, antes da independência. O local escolhido para as “cimeiras” era um magnífico castelo medieval no alto de um cerro, perto de uma estância termal a curta distância da fronteira com a Hungria a fervilhar de maiores de 80 anos em pleno Inverno. O local fica a mais de uma centena de quilómetros de Viena, a capital, e é (era) mal servido de transportes, o que implicava alugar um carro logo no aeroporto. Numa das vezes dei boleia ao nosso camarada da Antena 1 Luís Nascimento. Na viagem de chegada, uma saída da auto-estrada no cruzamento errado, já de noite, levou-nos para o meio do campo, por estradas entre montes e alguns vales e casas aqui e além. Áustria profunda, mas sem comparação com que se vê por aqui quando vamos parar a uma aldeia de rumo perdido. Talvez só ladrar dos cães fosse igual. Não nos restou alternativa a não ser parar junto a uma daquelas belas mansões e perguntar como poderíamos ir ter ao destino pretendido. Como eu ia a conduzir, coube ao Luís a “missão”. Tocou à campainha, apareceu uma senhora que só falava alemão, mas que não teve qualquer hesitação em mandá-lo entrar. Mapas para aqui, gestos para lá, mesmo sem uma língua comum lá ficámos a saber como sair daquele labirinto campestre sem referências. A dificuldade de comunicação levou-me ainda a ir à casa também, a senhora muito amável, sem uma ponta de receio, a hospitalidade ao nível mais elevado. Tive ainda mais umas experiências destas, bem positivas, no país, onde cheguei até a voltar em férias. Sempre tive, e mantenho, uma opinião extremamente positiva da Áustria e dos seus habitantes.
Entenderás que assim o choque ainda é maior. Ainda não tínhamos esquecido Natascha Kampusch, a rapariga que esteve oito anos escravizada numa cave com cinco metros quadrados sem que a polícia consegui-se esclarecer o seu desaparecimento, levamos com esta marretada que abala todos os limites que pudéssemos ter padronizado sobre o que a monstruosidade dos homens é capaz. Um homem finge o desaparecimento da filha, aprisiona-a numa cave debaixo da garagem da casa onde vive, viola-a, da relação incestuosa nascem sete filhos, um morre, três nunca tinham saído do calabouço nem visto a luz do dia, os outros três vivem ali por cima, com os avós e desconhecem que a mãe e os irmãos sobrevivem numa espécie de catacumba a escassos metros. A mais velha viveu naquela “gruta” os 19 anos que tem de vida.
Isto aconteceu desde que nós tínhamos cerca de 20 anos (se ainda te conseguires lembrar) e durou durante cerca de 8.700 dias…A mãe e avó das vítimas diz que não sabia de nada, as três crianças que saíram das catacumbas para a casa dos avós ainda bebés também nunca deram por nada estranho lá no fundo do quintal, onde estava a escada que levava à prisão. O avô, de acordo com os relatos conhecidos, justificava os netos em casa - de uma filha que as autoridades achavam ter desaparecido por opção própria e ter aderido a uma seita religiosa - apresentando declarações assinadas pela própria mãe, que ele dizia ir depositá-los à porta de casa. Tudo normal…
Até ele ir levar-lhes comer todas as noites não era motivo de estranheza para ninguém. Dizia que ia ao atelier onde só ele entrava. Aumentou o espaço da cave à medida que ia tendo mais filhos/netos e também nunca ninguém achou estranhas as obras nem viu nada de anormal…Nem lá em casa, nem na vizinhança, nem na vila…Nada! Depois disto tudo, uma história tão mal contada acaba por se revelar com uma ida ao hospital da “escrava” de 19 anos devido a uma doença intratável no buraco. No hospital pediram a presença da mãe para saber a história clínica da doente. Um gesto simples mas de um efeito prodigioso. Interrompeu o pesadelo.
Acreditas que tudo se passou assim desta forma simplista ao longo de 24 anos? Eu não…É demasiado mau para ser verdade. A polícia que investigue bem e faça o seu trabalho. Cá fico à espera de saber o que realmente aconteceu.

Um incrédulo abraço.

António Martins Neves


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