Perspicaz Fernando,

em momentos como o actual, entram-nos todos os dias pela casa dentro caras e vozes a tentar-nos convencer que são de uns predestinados capazes de nos salvar do apocalipse. É quase sempre assim antes de eleições. Um desfile de líderes políticos a suarem por nos fazer crer que o nosso bem estar é a sua maior preocupação, que se lhe dermos o voto, é desta que o país irá onde nunca foi. O costume há mais de 30 anos. Nada habitual é alguém comportar-se como tendo uma missão a cumprir sem dar por isso, justificá-la numa frase com meia-dúzia de palavras e ninguém encontrar a mais remota explicação para um comportamento só registado pelos mais atentos.

Augusto C. não tem a mais pequena queda para político, mal se lhe entendem as palavras da boca sumida e a sua capacidade de liderança nunca deve ter sido avaliada, para bem dele. O que lhe falta nestas matérias tão desenvolvidas pela ambição dos tantos que querem tomar nas mãos as rédeas da coisa pública, sobra-lhe em perseverança, que dispõe numa quantidade colossal, incalculável mesmo. E que faz o pequeno homem de tez quase negra, boné e uma dificuldade enorme em levantar os pés do chão? Anda! Mas não dá pequenos passeios. Percorre pelo menos uma dúzia de quilómetros diariamente. E porquê? Ao que me contam, costuma responder: “Tenho que ir às compras”. Ninguém acredita muito na explicação, tanto mais que costuma andar com a caixa que fixou por cima da roda traseira da bicicleta quase sempre vazia. Bicicleta? Não anda a pé?? Anda, mas sempre com a uma bicicleta ao lado, daquelas para aí com a idade do 25 de Abril. Em vez de uma bengala, apoia-se nas duas rodas, em cima das quais já deixou de se conseguir equilibrar há que tempos. Anda pela faixa de rodagem, encostado aos passeios, às bermas, e usa um colete reflector verde, igual aos que são obrigatórios para os automobilistas quando ficam empanados ou têm acidentes na estrada.Os dias correm quase sempre iguais: uma viagem de manhã para “ir às compras” com partida do bairro, passagem por outros dois até ao destino. Ali chegadao, bicicleta trancada num daqueles pinocos anti-carros em cima dos passeios. E o cão a guardar. Sim, Agusto C. tem um cão, pequeno como ele, que lhe segue os passos quando devidamente autorizado. Vai à solta, farejando aqui e ali, uma vezes atrás outras à frente, algumas correndo outras deslocando-se com preguiça. Feitas as “compras”, regressa a casa antes da hora do almoço. Quando a viagem decorre em locais com pouco trânsito, o cachorro ostenta um pose mais descontraída e solta, quando os carros surgem ameaçadores cola-se aos pés do dono. Ah, um pormenor nada irrelevante: cada uma destas tiradas é desenvolvida em etapas que terminam e começam metamaticamente nas diversas tabernas e cafés que existem no caminho. Depois de almoço a dose é repetida. E no dia seguinte e no outro e no outro…
Dirás tu daí: então isso tudo não configurará alguma dependência das escalas nos balcões para “matar a sede” causada pela andança? Então mas se o podia fazer a dezenas de metros de casa, por que raio se sujeita a tamanha e estafante rotina? Uma vantagem tem seguramente: o exercício a que se impõe e que lhe impede a contemplação do mundo a partir de uma cadeira empalhada como é banal noutros reformados da sua geração. Para quem vê e ouve de fora, o resto afigura-se uma espécie de segredo à espera de ser revelado. Que também não deverá ter nada de extraterreno, mas apenas e só alguma necessidade do corpo ou da alma.
Fica o exemplo da persistência e, recorrendo um pouco à imaginação, da convicção. Qual? Não faço ideia. Olha, deve ser porque sim…

Um insistente abraço

António Martins Neves


3 Responses to “História do homem que anda”

  1. 1 Catarina

    Olá António!

    O meu nome é Catarina e sou amiga do Fernando. No início foi por causa dele que comecei a frequentar este blog. Agora é pelos dois.

    Muitos parabéns! Para mim ler-vos é uma lição de vida, pessoal e profissional.

    Um abraço,

    Catarina

  2. 2 Isabel

    António

    Apesar da onda sufrágica que nos invade, os candidatos não são todos iguais. A dedicação à causa pública e os valores que os movem estão, em muitos deles, colados à sua própria pele. Tanto Garcia Pereira como Paulo Portas são homens dedicados e empenhados no bem estar de todos nós, emboram esgrimam de modo diferente o seu amor por Portugal. Parece-me por isso inoportuno colocá-los a todos no mesmo saco. Oportuno seria o António dar o seu parecer esclarecido, não acha? Há muita gente, demasiada, profundamente errada. Mas só erra quem se atreve a ser. Quem se atreve a sonhar. Quem se atreve a agir. Atreve-se, António??

    Isabel C.

  3. 3 António Martins Neves

    Isabel,
    é a sua opinião, que respeito. Também tenho a minha.

    Obrigado pelo comentário.

    António Martins Neves