O “bando dos quatro”

Internacional Fernando,
hoje escreve-te um amigo com azia, cansado que está das hipocrisias e do mentiredo, como crescemos a ouvir dizer, dos grandes líderes mundiais. Causaram a morte de desenas ou centenas de milhares de pessoas no Iraque e entre os seus próprios concidadãos e agora têm o descaramento de vir dizer que foram enganados ou que se enganaram. Não dizem por quem nem porquê. Fica claro, no entanto, que esses supostos dirigentes que querem ser referênciaséticas e morais do mundo atribuem diferentes valores à vida: se for na terra deles justifica apontar mísseis e disparar. Já se for num pais pobre…morrem.
Há quase cinco anos que aquelas lindas ilhas açorianas foram cenário para uma das mais desastrosas decisões tomadas nos últimos anos, por pessoas que acham ser iluminadas e terem responsabilidades acrescidas sobre o futuro da humanidade: a invasão do Iraque. Em teoria. Na prática, foi o que se viu. Para derrubar um regime ditatorial como tantos outros existentes no mundo já morreu várias vezes o número de pessoas que teria sido assassinado pelo regime de Saddam Hussein, um tirano de facto. Então e agora, perguntas-me tu? Reina a maior anarquia no Iraque, que se tornou uma espécie de pátria do terrorismo, onde se apuram técnicas e tácticas que ainda nos hão-de bater à porta. Claro que estamos perante facínoras que matam em nome da religião, como os cristãos aliás já fizeram, mas as verdadeiras motivações, como todos nós sabemos, são políticas.
Qual é a solução? Não sei. Quem deu o nó que o desate. Que havia armas de destruição maciça, que vinha dali o fim do mundo elevado ao quadrado…bom! Bush liderou, com o dinheiro e a tropa, os ingleses, ainda presididos por Tony Blair, foram atrás e contribuíram com o que puderam, o espanhol José Maria Aznar achou que era a oportunidade da vida dele e quis aparecer ao lado dos que invejava pelo poder que queria para si a e para Espanha e, por último, mas mesmo no fim, o retrato teve ainda que se alargar para caber lá o então primeiro-ministro de Portugal e actual presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, o anfitrião por decisão alheia. A convicção com que defenderam a guerra teve a mesma força com que agora assumem que se enganaram (ou dizem que foram enganados). Não lhes acontece nada, além de se apearam dos poleiros donde cantavam por essas alturas. Excepção feita ao português, que ainda se alavancou (como se diz agora) a um cargo mais elevado.
O jornal Diário de Notícias recuperou hoje o tema e as fotografias, mas as justificações que aqueles quatro caras-de-pau conseguem apresentar para terem contribuído para um morticínio que ninguém sonha quando acabará é que não convencem.
Barroso diz: “Vi os documentos. Tive-os à minha frente, dizendo que havia armas de destruição maciça. Isto não correspondeu à verdade”. Deve achar suficiente e continua calmo e sereno no seu belo “emprego” que lhe ofereceram quando descobriu que ser primeiro-ministro de Portugal era uma chatice, dava uma trabalheira desgraçada e o arrastava a passos largos para o precipício.
O Blair, que já voltou à “vida civil”, deixando o “menino” nos braços de outro, acabrunha-se: “Peço desculpa pela informação, que se mostrou errada. Mas não peço desculpa por ter removido Saddam Hussein do poder”. Podia era ter continuado a cruzada e ali perto do Iraque tinha muito para deitar ao lume, a começar pela Arábia Saudita, esse “aliado” que é o único estado do mundo que é propriedade de uma família (Saudi) que dá até o nome ao país. Pois…
O espanhol José Maria Aznar, obrigado a largar as rédeas do poder em Espanha quando quis fazer crer que os atentados dos islamitas nos comboios de Madrid eram obra dos bascos da ETA e perdeu as eleições nas calmas, vem também  ao confessionário para dizer: “Todo o mundo pensava que havia armas de destruição maciça no Iraque e afinal não havia. Sei-o agora, mas antes não sabia”.
Por último, o “autor” da história, George W. Bush, que já anda a arrumar a secretária, porque não pode voltar a recandidatar-se à presidência dos Estados Unidos, diz o que jamais alguém supôs ouvir-lhe da garganta: “É verdade que muita da informação se mostrou errada. Como presidente, sou o responsável pela decisão de ir para o Iraque”. Sim, senhor. E agora? Vai ser responsabilizado? E os outros, Fernando, vão andar pelo mundo a ganhar a vida a dar conferências? (O Barroso ainda não precisa) Só se for sobre a forma de destruir um país de uma assentada e colocar o mundo inteiro em risco da noite para o dia.
Não lhes vai acontecer nada, Fernando. Nós é que já estamos a pagar. E os que vierem a seguir, vamos acreditar neles? Não juram qualquer coisa com a mão em cima de um livro quando se atiram de cabeça ao poder? Para que serve? Para nós pagarmos com o corpo e a alma e suportarmos sem poder impedi-los…Não me parece nada justo, ó Fernando!

Um desalinhado abraço

António Martins Neves