Guiné-Faroeste

Avisado Fernando,
uma demanda por causa de um cão, ao que contam os relatos, está quase a provocar um golpe de Estado aí na vizinha Guiné-Bissau. Há três mortos a assinalar, a polícia de intervenção desarmada, vários dos seus elementos detidos, a directora da Polícia Judiciária a pôr o lugar à disposição e o Governo, nas calmas, a anunciar para segunda-feira, dia em que lerás esta carta, uma conferência de imprensa para tentar explicar o que se passou, se é que alguém vai conseguir esclarecer realmente o que esteve na origem de tamanha turbulência em Bissau.

É que naquela cidade e naquele país, que cada vez evidencia mais andar completamente à deriva, tudo parece possível. A história contada diz que tudo começou com uma discussão num bairro de Bissau, aparentemente por causa de um cão, imagina! Envolvidos na demanda um elemento da Polícia Judiciária (PJ), fora de serviço, e outro da força de intervenção rápida da polícia guineense, uma espécie de corpo de elite treinado em Angola, com cerca de 250 efectivos. O conflito acaba com o investigador a abater a tiro o elemento da polícia de intervenção, mais um civil e a deixar outro ferido com gravidade. Numa atitude completamente normal, a directora da PJ, Lucinda Barbosa, manda deter o seu subordinado suspeito de dois homicídios. Quando o homem estava já preso, aparecem nas instalações da Judiciária vários elementos do tal corpo especial da polícia com o objectivo de vingar o colega morto na véspera. Invadem o espaço, abrem todas as celas a tiro, para que os detidos fujam, e levam consigo o suposto autor das mortes de sábado. Umas horas mais tarde devolvem-no, mas já morto e com sinais de tortura, deixando-o à porta da sede da PJ. Dizem que querem falar com a directora, mas são demovidos por outros polícias, não se percebe bem quem, que protegem a mulher e os afugentam. Mais tarde sabe-se que a Polícia de Intervenção Rápida, como é designado o destacamento, foi desarmada por ordem do Governo. tarefa assim tão fácil? Entretanto, a directora da PJ põe o lugar à disposição, enquanto no Governo se iniciam contactos e diligências para evitar a demissão de Lucinda Barbosa. Quando te escrevo não imagino qual vai ser o desfecho da situação nem o que vai acontecer nas próximas horas.
Sei apenas que a história não me convence e um cão não me parece razão suficientemente forte na Guiné-Bissau, um dos países mais pobres do Mundo, para dois agentes da autoridade se travarem de razões ao ponto de um matar o outro, mais um civil e deixar um segundo gravemente ferido. Numa terra a que já chamaram o primeiro narco-estado do mundo há quase sempre razões para duvidar que situações destas sejam mesmo aquilo que nos querem fazer crer. Um coisa é certa: por ali não há rei nem roque e por menos já se falou em golpe de Estado. E quando um corpo de elite policial é mandado desarmar, não sabemos bem o que poderá acontecer a seguir, já que atendendo à dimensão do país, constituem quase um exército, ao que consta bem armado e razoavelmente treinado. Se calhar vão ter que meter a tropa ao barulho e…bom, lá virá mais um episódio da eterna crise guineense.
Quase tudo isto ocorre no dia em que a Liga Guineense dos Direitos Humanos divulga o seu relatório referente ao ano passado e onde se constata que a vida das pessoas tem um valor de quase zero no país. Mata-se, espanca-se e tortura-se por tudo e por nada. Polícias ou civis recorrem à violência e a justiça é uma espécie de miragem num país que ainda não é deserto.
Para agravar tudo mais, o presidente da República, Nino Vieira, diz nada e fecha-se em copas perante uma verdadeira situação de crise institucional, num país a ameaçar cair no abismo, e convoca uma reunião por causa do fim da legislatura parlamentar para segunda-feira…como se nada tivesse acontecido no fim-de-semana. Acreditas? Custa, não é, mas é verdade. Que bem se deve estar no Sal!

Um preocupado abraço.

António Martins Neves


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