Guerra de camas pelas damas

Arrependido Fernando,
a tua última carta revela aquele arrependimento comum a quem se confronta com as consequências da ressaca: dores de cabeça, mau estar, enfim. Para que é que eu bebi?? Acordar com céu logo ali a roçar o cabelo não é a situação mais agradável do mundo. Concordo. Até à próxima. Mas a vida não pára, o mundo também não e este ano até parece que começou a rodar mais rápido que o normal. Ou promete ser vertiginoso: deixas de poder fumar em recintos fechados, os bancos que enriquecem e nos determinam a vida estão nervosíssimos e as primas-donas estão a dar que falar….
Isso da passagem de ano é (quase) sempre igual. Por isso a minha versão preferida é igual a muitos outros fins-de-semana. Um bom petisco, um bom tinto, boa conversa, melhor companhia e está passada. Em casa, nada de carros, a cama perto e na outra manhã é um dia igual aos outros. Sim, a carteira ressentiu-se um bocado, mas soube bem. Olha, sinceramente foi mais um. Chateia-me mais aquela orgia comercial do Natal. Se eu pudesse…
Foi de tal forma que se se queres que seja franco quase nem me recordo já de como foi a noite há dois dias atrás. Tamanho é o “tsunami” de nova “informação” com que se leva logo ao mudar a folha do calendário. E, neste espaço semi-confessional e totalmente de desabafo uma realidades ergueu um muro (de fumo?) que deixa invisível o passado recente: a “guerra” para decidir quem usufrui da liderança dos dois maiores bancos portugueses.
Indo por partes, a banca está escandalosa: parece aquelas mulheres das revistas sociais que contam tudo para aparecer na capa e revelam mesmo que um dia os filhos adolescentes bateram à porta do quarto e elas responderam: “A mãe agora não pode porque está a fazer amor…” É uma caldeirada das antigas. Todos querem dormir com todos, Fernando. Aquele homem que garantiu abandonar a política há uns anos – se ainda te lembras daquela conferência de imprensa familiar, de que ele já se esqueceu seguramente – e acabou a liderar o maior partido da oposição, Luís Filipe Menezes, foi o primeiro a pôr o dedo no ar. Queria alguém recomendado por si e do seu partido ou “próximo” deitado na cama larga da Caixa Geral de Depósitos (CGD). Acreditas? É verdade. Lençóis de cetim…Não tem nada a ver com desempenho – só razões familiares, ou melhor, políticas, neste caso. E o que menos eu achava possível, aconteceu. Calhou em sorte a um ex-ministro do actual Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, antigo primeiro-ministro quando foi presidente do PSD, o escolhido para a “dama”, que é só o maior banco português, controlado pelo Estado liderado pelo PS, actualmente, e que tresanda a lucros por tudo quanto é malha dos vestidos de seda pura que exibe. Faria de Oliveira, de seu nome, foi o eleito para o noivado. Menezes meteu um ferro, se estivéssemos a assistir a uma tourada e iria cortar uma orelha, acho eu.
Quando o mundo ameaçava tornar-se num sítio calmo aqui pela West Europe, eis senão quando o ex da Caixa, a caminho do leito faustoso do maior banco privado, o BCP, vê aparecer-lhe no hall, à saída do elevador, outro candidato a entrar no quarto. Isso mesmo: Miguel Cadilhe, outro que foi ministro de Cavaco decidiu lançar-se escada acima e bater-se pela “dama” que Santos Ferreira, vindo do palacete da CGD já via como seu novo lar de pernoitas. Puro engano. Agora vão ter de disputar o leito que tanto levou a crescer e que muito custou aos portugueses (em dinheiro mesmo, falo por mim). Promete-se portanto um Inverno quente, que remete uma noite menos comedido de passagem de ano para o recanto do esquecimento imediato. Basta ficar atento. Até em Cabo Verde vão chegar notícias do (d)esenlace!

Um observador abraço.

António Martins Neves