Governantezinhos de um país acanhadito
Publicado por António Martins Neves 30 Maio 2008 em Portugal.
Automobilizado Fernando,
hoje vou cumprir a promessa que te fiz há dias de falar sobre o que considero ser a indiferença dos governantes que decidiram os nosso destinos nos últimos 15 a 20 anos em matéria de combustíveis, no que ao ambiente diz respeito e também à carteira de quem precisa (ou quer) andar em transporte próprio, particulares e empresas incluídos. Como os decisores devem ser avaliados pelas medidas concretas que colocam em prática, e não pelas teorias que elaboram sem qualquer consequência, iriam todos corridos a zero se fossem classificados pelas alternativas aos combustíveis tradicionais que deviam ter incentivado.
Há seguramente mais de 10 anos fui tentar saber quais as vantagens e os contras da utilização do gás resultante da refinação do petróleo, conhecido pela sigla GPL. Fiquei surpreendido na altura pelo aspecto positivo daquela alternativa à gasolina. Já nesse tempo a diferença de custo seria à volta de metade, situação que ainda agora se mantém, quando a gasolina atinge 1,5 euros e GPL não chega aos 70 cêntimos por litro. Nesses tempos idos, os especialistas na área queriam acreditar que no gás estava uma energia cheia de vantagens com condições para conquistar mercado. Além de muito mais barata, polui muito menos, poupa mais os motores, aumentando a sua duração, e faz descer consideravelmente os custos com transportes.
Nesse tempo tudo estava incipiente por cá na matéria. Como sempre, ainda não tínhamos nascido para uma realidade em que os nossos parceiros europeus já eram adultos. Em Itália, por exemplo 30 por cento das viaturas já se deslocavam a GPL e começava-se mesmo já a testar o gás natural.
Aqui era um bicho-se-sete-cabeças. Tinha sido posta a correr a ideia de que o GPL tinha um elevado risco de explosão, criando-se legislação que impedia a sua entrada em parques de estacionamento subterrâneos ou mesmo em garagens particulares. A questão foi-me desmistificada por um responsável do Instituto do Gás com factos concretos, tanto em matéria de segurança como em vantagens económicas. Contou-me o caso de uma carrinha a GPL que fora esmagada pela desabamento de um prédio em Lisboa sem que se tivesse libertado um centímetro cúbico de gás. A segurança dos depósitos de GPL contrastava (e contrasta) com a fragilidade dos reservatórios de gasolina: os primeiros são praticamente invioláveis, os segundos furam-se com recurso a um simples prego e um martelo.
Sem que fossem apresentadas razões objectivas, marcas de automóveis que equipavam de fábrica quase todos os modelos para funcionarem nas modalidades de gás e gasolina nunca transferiram essa prática para Portugal. Vi na altura revistas de automóveis francesas onde eram testadas essas viaturas e se concluía que outro argumento usado contra o gás do petróleo caía por terra. Nos motores mais avançados a perda de potência era quase nula se trocassem a gasolina pelo combustível gasoso. E equipados de fábrica evitava o transtorno de quem se dispunha a preparar as viaturas posteriormente, mesmo em oficinas qualificadas, onde era necessário instalar mais um reservatório, roubando espaço à bagageira para instalar o depósito do dito GPL. De origem, o mesmo reservatório fica encostado ao da gasolina, de dimensões mais reduzidas porque funciona apenas como reserva para situações de recurso, em que falte o gás. Numa busca que fiz há alguns meses encontrei apenas um modelo de carrinha comercial equipado de fábrica para funcionar com este combustível.
Isto tudo para te dizer que, além de não termos aprendido com quem nos rodeia, teimosamente continuámos a rejeitar uma solução que é vantajosa para todos. Tanto do ponto de vista económico como ambiental. E porque se resiste a uma proposta que só apresenta aspectos positivos, perguntarás tu. Porque o Estado e as empresas petrolíferas não mexeram um dedo para a incentivar. Os motivos? Só me ocorre que foi porque agiram com o exclusivo objectivo de manter as elevadas receitas de impostos, num caso, e lucros fartos, no outro. Aqui o Estado (os governos) falhou em toda a linha na sua obrigação de agir de acordo com o interesse geral. Mais receita fiscal e mais lucros de um lado, mais poluição e custos de produção a engordar do outro. Nada que uma campanha de incentivo não tivesse ajudado a ultrapassar. Uns anúncios na televisão e nos jornais para esclarecer os consumidores criariam a procura no mercado que obrigaria as marcas a importar os carros “verdes”, as petrolíferas a massificar a oferta nos postos de combustível e os construtores de centros comerciais a projectarem os parques de modo a anular o risco teórico de fuga de gás, como já sucede há décadas noutros países.
Parece elementar para qualquer mortal, não é? Diz isso aos governantes. Quando o dinheiro fala mais alto, não há interesse colectivo que se sobreponha nem questões ambientais que lhe valham. Tudo agravado quando se está num país onde os hábitos empedernidos aliados à falta de informação trazem a sociedade manietada, resistindo mesmo a um “negócio” vantajoso. Agora olha, apanhamos todos por tabela: com os preços dos combustíveis pela hora da morte cai a receita fiscal para o Estado, os vendedores de combustível ficam com a corda na garganta e começam a fechar postos de abastecimento. É com esta falta de visão que os nossos governantes nos atolam. Incapazes de olhar à volta e ver as boas opções dos vizinhos, fazem uma gestão casuística como se o futuro fosse só amanhã. São cérebros programados para gerir no horizonte máximo dos quatro anos de uma legislatura. Pedir-lhes mais é exigir o impossível.
Um inconformado abraço.
António Martins Neves



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