Empoeirado Fernando,

ainda bem que me falas da natureza porque quando li a tua última carta vinha preparadinho para te contar uma estória que me aconteceu há dias numa natureza também invulgar mas igualmente surpreendente, embora sem pós que se vejam.

Ia a caminhar muito devagar por uma estrada no meio de um bosque/floresta tipicamente mediterrânico - azinheiras, sobreiros, medronheiros, lentisqueiras – quando ouvi o piar de um pássaro que me pareceu familiar. Achei estranhíssimo, ali. Fui na direcção do grasnar e lá estava ele, a esvoaçar de árvore em árvore, com o resto do pequeno bando, sempre com aquela postura de protesto, zangado. Eram gaios. Tudo seria normal se estivesse na Serra D’ Ossa ou do Cercal. Só que estava quase no centro de Lisboa.

Foi numa manhã de Inverno mas solarenga, céu completamente limpo, a matar o frio que fizera de noite. Obrigações paternais retinham-me por duas horas. Li o jornal por inteiro e decidi passear quando ouvi o tal característico grasnar. Achei estranho e decidi ver de que se tratava quando lá vi a tal família de gaios, ali à beira da radial de Benfica, o eixo Norte-Sul sempre a vomitar carros para cima e para baixo, mesmo a um sábado. Diria que dali quase se via o telhado do prédio onde moras aqui. Em linha recta serão uns 200 metros, não mais. E os gaios ali. E mais piscos e melros, tudo muito verde, no centro de Lisboa, em pleno Parque Florestal de Monsanto. Incrível a capacidade de adaptação das espécies. Aquela mancha de verde no meio da cidade consegue ser escolhida como casa de espécies que eu, na minha ignorância sobre a matéria, julgava detestarem o casario, a poluição e a confusão de uma cidade como Lisboa. Afinal, não. Também já vi andar lá no alto aves de rapina e posso assegurar-te que a introdução de esquilos foi um sucesso. Atravessam a estrada à maluca ao ponto de morrerem atropelados e nalguns locais vêem-se bastantes a subir e a descer árvores num frenesim e entretidos a comer pinhões que pacientemente retiram das pinhas.

Quando a família de gaios achou que eu estava próximo de mais, aí a uns 30 metros, desapareceram com aquela algazarra que os caracteriza quando se sentem incomodados. Olhei em volta e vi, bastante mais longe, mas ainda no parque, outras aves que não identifiquei, voando de árvore em árvore. Que bela imagem, Fernando.

A natureza a recompôr-se ali no meio da cidade, naquele parque, que embora tenha uns razoáveis 900 de hectares - imagina um rectângulo com 4,5 por dois quilómetros - não é propriamente uma vastidão arbórea…Também já lá observei coelhos e um dia até uma perdiz, mas neste caso achei “fruta” de mais. Devia ter fugido de alguma gaiola ou viveiro, presumi. Isto tudo para te confessar que nunca deixo de me espantar com a natureza, que faz tudo para contrariar as barbaridades a que a sujeitamos. E que há animais com uma capacidade de adaptação com que nós nem sonhamos.

Há uns anos atrás, andava a passear numa tarde de fim de semana junto daquele lago que instalaram no parque Eduardo VII, com uma esplanada solarenga e convidativa para dias primaveris, quando reparei nuns patos que nadavam no lago, daqueles pequenos, em que o macho tem a cabeça verde. Julgo chamarem-se patos-reais. Lá andavam eles no seu objectivo primordial de matar a fome e garantir a sobrevivência da espécie num lago sem sombra de comida. De repente, decidem partir. Começam a bater as curtas asas com grande velocidade para conseguirem subir, as patas a deslizarem na água como pequenos hidroaviões e lá “descolam”. Fiquei pasmado. Seriam selvagens, se não fossem voavam assim com aquela determinação? Pus-me a verificar para onde iriam aquelas alminhas…

Ganharam altitude, desviaram-se de uns prédios mais altos, seguiram, seguiram, até os perder de vista mas entender que se dirigiam para uma mancha verde: eram os jardins da Fundação Gulbenkian, aqui descritos e mostrados pelo Nuno Barreto, onde existe outro lago e, provavelmente, mais comida que no anterior. Fantástico, como diria o outro. E não deviam fazer só aquela percurso. Atrevo-me a dizer que devem conhecer também o lago do Campo Grande e outros na cidade. Quem foi o guia que lhes ensinou que nos meio dos prédios há locais que permitem a um pato sobreviver, não sei. Mas lá que é uma bela lição de adaptação da natureza às imposições humanas, não tenhamos dúvidas. Também já vi uns desses patos à noite, a dormir com a cabeça debaixo da asa no relvado em frente à Reitoria da Universidade de Lisboa, um local onde passam carros de um lado e de outro a quase toda a hora, o que afastará eventuais inimigos como gatos curiosos ou cães sem dono e suficientemente limpo para ver aproximar qualquer humano daqueles que petiscam tudo o que apanham. Estas e outras é que vão dando aquele fiozinho que também nos ajuda a sobreviver e nos permitem esquecer a outra animalada, a dita racional, que tantas horas nos consome nas nossas escritas

Um integrado abraço.

António Martins Neves


2 Responses to “Gaios, patos e outros habitantes de Lisboa”

  1. 1 ricardo

    Ó António, deixa-me contar uma pequena estória que encaixa bem aqui, creio.

    Era eu puto, mesmo puto, ainda

  2. 2 ricardo

    ainda mais puto que por estes dias. E, bem no meio de uma vila da Beira Alta, Moimenta da Beira, uma raposa aflita, por certo, foi parir por debaixo de um daqueles velhos tanques de lavar a roupita à mão.
    De manhá deve ter dado conta do erro.
    Ficou umas horas sem aparecer.
    Mas depois viu que os putos das redondezas deixavam ao lado da ninhada umas salsichas, chouriços e fatias de fiambre devidamente “raposadas” das dipensas familiares.
    E foi-se habituando à ideia.
    Durante duas semanas a raposa deve ter comido exclusivamente este tipo de guloseimas e toda a gente achava bem aquilo. Ninguém se metia com os bichos.
    Mas havia um fulano, de mal com a vida, que sempre que via ali os putos - eu e outros - à volta da família raposa, ia dizendo: “Um dia destes acaba-se a brincadeira!”.
    Ninguém lhe ligava, como também ninguém lhe ligava quando dizia que um dia iria furar a bola da partida das cinco da tarde.
    Um dia os bichos, que estavam numa casa mais ou menos abandonada, por debaixo do tanque antigo de lavar a roupa à mão, apareceram todos mortos. Todos mesmo. A sacholada!
    Fiquei, na altura, com a primeira certeza de que me lembro: há uns bípedes que se parecem tanto com pessoas que, no meio de outros, passam por sê-lo também.

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