Foi você que pediu um tiro na cabeça?
2 comentários Publicado por António Martins Neves 5 Março 2008 em Portugal.
Corajoso Fernando,
voltei à “cidade” e garanto-te que se por aí há quem vá para a praia de pistola nas cuecas, aqui quem se queira proteger mesmo da violência deverá ir comprar um colete à prova de bala e dirigir-se a um dos vendedores clandestinos que dizem haver por aí aos magotes para adquirir uma daquelas metralhadoras à “Rambo”, umas fitas de munições para a abastecer e assim conseguir ter alguma paz de alma.
Um estudioso destes fenómenos da (in)segurança, ex-investigador da polícia científica que funciona agregada à Polícia Judiciária, justificava há dias o elevado número de assassinatos com uma espécie de mudança de atitude, um fruto dos tempos e do clima que grassa na sociedade, acrescento eu. Dizia José Manuel Anes, o tal investigador, agora um dos responsáveis do Observatório da Segurança que antes uma pessoa chateava-se com outra e dava-lhe um murro ou um tabefe. Agora, dá-lhe um tiro. Na última semana morreram sete pessoas aqui na Grande Lisboa, assassinadas.
Uma mulher está a estacionar o carro à porta de casa, em Sacavém, chega um homem ao pé do carro, mete uma pistola pelo vidro semi-aberto da viatura e desfecha-lhe com dois tiros. Poucos minutos depois estava morta. Cerca de quatro horas depois dois rapazes saem do um Centro Comercial em Oeiras e dão com um par de assaltantes a querer entrar num carro. Quando se apercebem que foram descobertos, um deles puxa de uma pistola e dispara, enfiando uma bala na cabeça de um dos rapazes que iam a passar. Morreu três dias depois. Pouco mais de 24 horas depois, no Porto, um empresário de automóveis e testemunha da Polícia no caso das mortes dos seguranças ocorridas no Verão regressa a casa ao final da madrugada num Ferrari. Sem que ainda se saiba porquê, despista-se na auto-estrada, o carro incendeia-se e fica transformado num monte de latas retorcidas. Identificaram a marca do carro pelas jantes e o passageiro pelos dentes. Ainda antes disso, numa discoteca, igualmente no Porto, clientes travam-se de razões e acaba por ser um segurança a levar vários tiros. Está livre de perigo, mas chegou a ter uma bala alojada na nuca. Em Viseu, também numa discoteca, mais um tiroteio ao cair do pano e mais seguranças feridos…
Segunda-feira, em plena hora de almoço, uma das mais movimentadas do dia na catedral dos consumidores, no propagado maior centro comercial da Península Ibérica, o Colombo, um segurança aparece morto numa zona de acesso reservado a funcionários com três facadas no coração e a arma ao lado do corpo.
Os responsáveis das polícias e demais autoridades de segurança já vieram dizer que os crimes não têm qualquer ligação entre si, pelo que não se está perante nenhuma onda de criminalidade. Faria se se estivesse, Fernando.
Numa atitude contraditória e inexplicável, o ministro da Administração Interna, Rui Pereira, que não se cansa de dizer que a criminalidade tem baixado e não comenta estatísticas oficiais com base em informação de instituições por si tuteladas, vai estar a anunciar medidas para combater este “surto” de violência mortal quando leres esta carta.
Ah, deixa-me dizer-te que, além de nenhum destes casos ter sido ainda esclarecido pela polícia, a outra onda que afectou e matou vários seguranças da noite portuense no Verão passado, em aparentes ajustes de contas, continua também por esclarecer. Uns detidos, mas nenhuma acusação conhecida mais de seis meses depois dos primeiros casos.
Ficavas descansado? Eu andava até agora, mas com mortes avulso com as dos últimos dias, começo a entender porque 70 por cento das pessoas dizem sentir-se inseguras.
Como vês, uma batalha campal numa praia, com uns tiros a animar, mas com toda a gente detida a seguir, não tem nada a ver com a forma como se anda a matar por aqui. Continua a ir à praia, que nada de acontecerá. Aqui já não te daria o mesmo conselho. Será porque a vida está tão má que deixou de ser valorizada e acabar com a dos outros é pouco mais do que dar um tirito?
Um alarmante abraço.
António Martins Neves


O problema é que acontecimentos como este não são assim tão raros como isso, a única diferença é que não têm exposição nos media, e a malta diz-se alarmada agora.
Eu quando ia para a escola e para o trabalho de transportes e andava a pé na rua sabia bem o perigo que corria e preciso de dedos emprestados para contar as tentativas de assalto e assaltos mesmo que ou fizeram a mim ou vi a fazerem a outros. Mudei de vida, passei a deslocar-me de carro para locais razoavelmente seguros e realmente o país parece super seguro.
O problema é este, temos uma visão destorcida das coisas e os media preferem encher durante 3 a 4 meses os telejornais com a Maddie ou a Casa Pia do que relatar os problemas que afectam toda a sociedade.
Viva, Eduardo.
A Comunicação Social não deixa passar em claro casos de crimes violentos nem dispensa, em muitos casos, algo que meta sangue. A questão maior, depois de estancar o caudal de mortes, é perceber se a criminalidade está a afectar o quotidiano das pessoas. Isso é o pior de tudo depois de haver pessoas que pagam com a vida. É por aí que acho ser a melhor forma de avaliar a questão da insegurança: quantas pessoas das minhas relações foram assaltadas nos últimos meses. O Eduardo terá uma ideia diferente da realidade, comparada com a minha. Vivemos no mesmo país e temos percepções diferentes. A questão que se coloca neste momento é que se mata por dá cá aquela palha. Não é o o roubo no multibanco, o furto do carro…É o dedo no gatilho, nervoso, a disparar por nada. E isso é que é ainda mais preocupante. Que Portugal nunca foi um país de brandos costumes, não tenho dúvidas. Agora que, na generalidade, até há poucos anos era um país sem indíces de criminalidade preocupantes, lá isso era. Vamos ver se mudou mesmo ou se estamos perante uma série de coincidências, como dizem os governantes…
Obrigado pelo comentário e volte sempre.
António Martins Neves