
Refastelado Fernando,
no dia mais animado do ano, enquanto te imagino espojado nos areais de Santo André ou lá por perto, nessas merecidas férias à beira de casa, há momentos que fazem a diferença aqui em Lisboa, donde a maioria dos habitantes desertou para locais ditos de férias e a cidade pode ser vivida de modo mais intenso do que no resto do ano. Registei o quadro que te envio.
Nem tudo é samba, nem corridinhos, nem rock n´roll. Há quem se entregue às baladas ou ao swing, como no resto do ano. Na rua, no meio dos prédios. Com serenidade. Agosto não é só fugir para o caos ainda maior do que nos restantes meses. Pode ser assim, disfrutado com alma, no coração da capital. Se fosse fazer a comparação, a mulher ganhava destacada. Está a ler um livro sentada num banco de jardim, perna cruzada, jeans, ténis vermelhos a condizer com a camisola. Tem rabo de cavalo e os movimentos que faz resumem-se ao passar da página. Não me atrevo a tentar adivinhar que história lhe está a encher a alma. Seja qual for, é prazenteira, absorvente. Deixa-a quase inamovível. Está num banco de jardim, daqueles clássicos, de madeira. Virada a Norte, ao fresco, um acanhado relvado pela frente. O Verão que corra e que abrase. Uma tarde de estio há-de continuar a ser o que uma mulher quiser. Com o seu livro.
Ele está a 20 metros mas não se vislumbram. A atenção recai-lhe em jornais de fim-de-semana. Há mais impaciência, um ler mais frenético, marcado pelas aspiradelas em cigarrilhas. Apaga-se uma e logo outra é acendida. O fumo entrai e sai logo, sem tempo para ser apreciado. Tudo decorre num ritmo mais nervoso do que do outro lado da esquina. Sentado num degrau de cimento, o homem parece cumprir um ritual apenas num local diferente. De calções, sandálias, seja lá como for, o mundo não pode passar ao lado. Os negócios, as eleições que se avizinham, as guerras, a bolsa, jamaois poderão esconder segredos. Nem no dia em que o país mais romarias contabiliza e a acumulação de gente a tentar esquecer o resto do ano confirma uma vulgaridade: a bela da vida não pára nem no 15 de Agosto.
Um despreocupado abraço.
António Martins Neves

