Ambientalista Fernando,
o título da tua carta de ontem recordou-me o cinema que frequentei na infância e na adolescência, onde muitos filmes, que não via, nem podia, eram precisamente destinados a maiores de 18. Não seriam matanças de tartarugas, obviamente, mas uma das frases publicitárias do engenhoso gerente da sala era, lembro-me de ler, junto aos cartazes que anunciavam as fitas, “Não espere que lhe contem, venha ver com os seus próprios olhos”…
Mas a sala não exibia só filmes para adultos. Cobria toda a população, apesar de não passar películas todos os dias. Lembro que o primeiro filme que vi lá tinha um título cheio de actualidade. Cumprira seis anos quando me estrei a ver cinema com “O Ladrão de Bagdad”, que, ao contrário do que possa sugerir o título, se destinava a quem tivesse acima daquela idade e não era um relato de violência nem uma trama de terror ou drama violentos. Muitos épicos se seguiram, sempre às matinées de domingos ou feriados. Depois andava dias e semanas a reviver as aventuras do Bem-Hur ou a pensar como é que teria sido possível abrir-se assim o mar como mostrava “Os Dez Mandamentos”.
Ao contrário do que se possa imaginar de um cinema inaugurado, salvo erro, no inícios dos anos 70, era uma boa sala. Apenas meia dúzia de filas com cadeiras de pau, à frente, e todas as outras estofadas. As últimas duas, as mais caras, obviamente, até se designavam poltrona.
Num período áureo recordo-me que chegou a haver exibições às terças, quintas, sextas, sábados e domingos, neste casos duas sessões. A televisão estava longe de se impôr e o cinema impunha-se como um divertimento acessível. O preço mínimo eram 7,5 escudos. A selecção era exclusivamente comercial, mas era o que havia e “cinéfilos” não faltavam.
As fitas chegavam nas bobines, despachadas de Lisboa, nos autocarros da empresa então conhecida por “Belos”. Cheguei a ver várias vezes António P., o gestor da sala, ir buscá-las na sua motorizada velhinha com um pequeno reboque atrás. Parece que o estou a ver: entrava pela estação de camionagem dentro, como faziam os comerciantes com as viaturas que iam buscar as suas mercadorias, rátá, rátá, rátá, colocava a “máquina” no “descanso” e esperava que o empregado lhe passasse por cima do pequeno balcão as caixas metálicas circulares que acomodavam as fitas. Logo ali António P., um publicitário nato, aproveitava para ir arregimentando espectadores, anunciando as “maravilhas” que iam nas latas.
Depois, tinhao hábito que nunca vi em mais nenhuma sala, de nos intervalos de um filme aproveitar para a anunciar o programa da semana seguinte: “Sábado, um grande filme de kung-fu e karaté…”, dizia ele com a maior convicção do mundo. Películas que exibisse tinham sempre a “sua” classificação paralela à da comissão de espectáculos. “Domingo, mais um magnífico filme com os irmãos trinitás”, ouvi-o anunciar muitas vezes.
Quando, muitas vezes no melhor da acção, a exibição parava e caía um slide vermelho a dizer “segue imediatamente” era certo e sabido que a fita se partira e era preciso remendá-la. Umas vezes mais rápidas, outras mais lentas, o projeccionista lá soldava o celulose e o filme arrancava de novo.
Podia-te contar-te dezenas de histórias que presenciei e algumas em que fui protagonista, mas como isto é uma singela carta, vou relatar-te apenas uma, mas daquelas que, costumamos dizer, levarei para a cova, porque nunca esquecerei.
Seria seguramente pelo menos adolescente (para ter podido entrar), quando subiu a cartaz o célebre “Cristiane F.”, um filme-choque para a altura – eu incluído – que abordava um fenómeno pouco conhecido da plateia: a droga. Muito menos as suas consequências mais nefastas.
Acontece que por esses anos a comunidade nómada cigana que regularmente passava na terra tinha quase o “vício” de ir ao cinema. Viam tudo o que passasse. Coisa estranha porque a grande maioria deles era analfabeta. Praticamente só os filhos dos que se haviam sedentarizado frequentavam a escola. Mas eles lá iam. Não liam as legendas, mas deviam tirar umas pelas outras e conseguiam entender o essencial da história, quando havia. Claro que os mais apetecidos eram os de pancaria de cabo a rabo. Até as mulheres da comunidade, tradicionalmente pouco dadas a espectáculos públicos, eram frequentadoras da sala aos domingos à tarde para ver os dramas indianos, aquelas histórias de amor que as encantavam até à exaustão e que estavam por essa época do apogeu em Portugal.
Voltando ao “Cristiane F.”, que também deves ter visto pela mesma altura, a sala, confortável e sempre a temperatura agradável, nesse dia parecia estar gélida. Tudo aquilo que os olhos absorviam do largo écran era um pesadelo. Não se ouvia uma mosca, um comentário, uma tossidela, nada! Cumpria-se esse silêncio quase fúnebre – porque não se ouvia choro – quando surge a cena em que o namorado da protagonista, que se prostituía para arranjar dinheiro para a droga, vai para a cama com outro homem. Tenho ideia que as cenas eram muito dissimuladas mas a situação não escapou a ninguém. E um dos habituais frequentadores da sala quando armavam barraca na vila quebrou o tal silêncio arrepiante com uma tirada que, acho eu, pelo inesperado e pelo tom alto, fez toda a plateia dar um salto na cadeira: “Hããiiiii. Ê nã te dizia?? Todo o homem que toma drogas é panelero!!!!”
“Schiu”, “cala-te”, “pouco barulho”, a confusão instalada, acende-se a lanterna de António P., atentíssimo de cada vez que alguém fazia algum barulho mais a despropósito, restabelece-se a normalidade e o silêncio. Passados poucos minutos, intervalo. O cinema tinha vários espaços de fumo, incluía até a possibilidade de sair para a rua (com um cartão) e até um bar, a meias com um dos cafés mais chiques da localidade. Dispunha de um “hall” junto das amplas casas de banho, onde a necessidade me chamou naquela noite, e ainda bem, para ouvir o desenrolar da história iniciada com o desabafo do espectador em pleno filme. Dizia um amigo do incontido comentador, em tom crítico: “Olha láaa, mas tu quando experimentaste [droga] não disseste nada disso”. Resposta pronta do outro: “Poi não! Porque disseram-me que aquilo era doce…”
Um cinéfilo abraço.
António Martins Neves


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