http://www.flickr.com/photos/luisa/95399379/Cronista Fernando,
não tem o dom da escrita, creio até que nem saberá ler, mas domina uma arte bem mais rara nos dias correm: iludir a ASAE, a polícia portuguesa dos comerciantes e de alguns costumes. Sem correr o risco de ser exagerado, acho que finta os inspectores com muito mais facilidade e naturalidade do que Germano de Almeida verte as suas histórias para o computador. Não excluo que possam mesmo conhecer-se. Ela até pode saber onde fica a Lajinha e gostar de afogar o olhar na baía do Mindelo. Tem ares de ter nascido por essas bandas. Mas não precisa de novas tecnologias. Basta-lhe uns baldes de tinta vazios, um alguidar ou dois, uma grande dose de coragem e um coração forte, para não precisar de andar sempre com ele nas mãos.
Não, não é nenhuma criação minha. A mulher existe mesmo e há vários meses que a conheço, de vista. Passo muitas vezes perto dela, como muitas centenas ou milhares de pessoas que percorrem a movimentada rua de Lisboa que prefere para desenvolver a sua actividade comercial. Está muitas vezes de joelhos, na beira do passeio, entre carros estacionados, costas para a rua. Olha frequentemente para mim, muito certamente perscrutando no meu rosto se poderei colocar-lhe o negócio em risco, se serei algum polícia à civil. Fará o mesmo com os outros que passam perto. Eu costumo olhar para dentro do balde, quando ele não está tapado com o alguidar. Nunca tive ousadia de meter conversa nem de lhe propor nenhuma transacção. Temo que a mulher de lenço enrolado na cabeça, tez escura e cara enrugada se assuste, fique desconfiada e…desapareça. Se calhar porque lhe admiro a coragem de ser assim uma espécie de Cristóvão Colombo de saia, que não sei se saberá por um ovo de pé mas sabe iludir com uma simplicidade estonteante a mais temida polícia cá da terra.
Claro que o que faz é perfeitamente ilegal. Costuma ter dentro do balde uns peixes grandes. Nunca consegui identificar nenhum nos olhares furtivos que lhes deito, tentando mostrar que não é nada comigo. Arrisco que já por lá passaram umas garoupas, uns pargos, talvez até mesmo algum cherne ou uma corvina mais maneirinha. Pelo ar do negócio, os clientes aproximam-se, acertam o preço de um peixe, ou mais - deve ser a olho, porque não se vê nenhuma balança por perto - a mulher arranja o peixe e pronto.
Ainda a ASAE não sabia que ia nascer, tinha várias vezes por semana à porta de casa outra vendedora, neste caso de fruta e legumes. Dava ares de camponesa saloia, das que antes vinham a Lisboa vender as colheitas da horta. Apenas pelo lenço caído nos ombros, depois de deslizar da cabeça. Porque os tomates, as cenouras, as couves, as maçãs e os morangos ia comprá-los à praça antes de montar a banca em cima do paredão que circundava o jardim da praceta. Tinha uma balança de cozinha mas nunca vi usá-la. Vendia à peça, por estimativa. E não fazia propriamente promoções. Ao fim da manhã partia a alta velocidade no Alfa Romeu em que o filho a ia buscar.  Apesar das aparências, queixava-se que a Polícia Municipal lhe atacava violentamente o negócio, multando-a quando aparecia de repente, sem lhe dar tempo de esconder a “banca” na entrada do prédio. Um dia deixou de ir. As vizinhas bem informadas reportaram que adoecera.
Mas isso foi há uns cinco anos, e já nessa altura vender na rua era uma tarefa árdua, um jogo do gato e do rato com a polícia municipal. Agora, com os agentes mais a ASAE, que não deixa passar um chouriço mal atado, aquela mulher ali está a vender peixe, na rua, ao tempo, de Verão ou de Inverno. Com as novas leis, não acredito que sobreviva à primeira investida autoritária. Terá que montar uma venda industrial para conseguir pagar a multa, se não for levada por o braço perante um juiz.
Acho que a ASAE desenvolve um trabalho importante, embora às vezes os seus responsáveis pareçam desconhecer regras e limites para actuar. Não sou dos que se queixavam por não haver e agora a criticam por existir. Mas gosto ainda mais de ver aquele mulher ali no passeio, a fazer o impensável nos dias que passam. Muita coragem, uma inocência desmedida? Não sei o que a mantém por ali, além da necessidade de sobreviver. Garanto-te que nunca lhe irei comprar um peixe, mas também não escondo que cada dia que ela fica a vender de balde e alguidar é um golo que marca na baliza das autoridades que dizem zelar pela nossa saúde. Sem resposta. O resultado deve já ir em muitas centenas a zero.

Um arrojado abraço.

António Martins Neves


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