Festivaleiro Fernando,
por aqui não temos o Festival da Gamboa, mas também há festa: começou o desfile de atracções e música muito variada que nos proporciona o maior partido da oposição, o PSD, com a convocação de eleições para um novo líder. O cartaz promete uma exibição que vai misturar vários géneros musicais, numa grande maratona com arremedos de luta livre que vai encher páginas e páginas de jornais e ocupar horas de telejornais como jamais algum festival com esse verdadeiro nome consegui almejar. Eu estou entre os candidatos aos lugares da fila da frente para ver o menino-guerreiro Pedro Santana Lopes combater, como ele voltou a anunciar. Contra quê ou contra quem não disse, mas não me espanta que no palco apareçam uns moinhos de vento. E claro, uma irmandade a dar cotoveladas e a maltratar um recém-nascido num berço. Não é nenhum melodrama, não! É uma tragicomédia…
Garanto-te que este festival apresenta um conjunto de estrelas que não primam por saber cantar, mas são esforçados na perspectiva musical para encantar, por enquanto, os militantes do partido que vão ser chamados a votar no líder que preferirem, a 31 de Maio. Há uma mulher com ar de durona com queda para viola-ritmo numa banda de heavy-metal. Chama-se Manuela Ferreira Leite, foi ministra em governos liderados pelo actual Presidente da República e tocou temas que abordavam temáticas tão distintas como a Educação ou as Finanças. Mas a única balada que deixou no ouvido foi uma canção com o refrão “e suba o IVA, e suba o IVA”. Os espectadores importantes dizem que ela vai ter casa cheia e já lhe começaram a bater muitas palmas, mais de um mês antes da senhora se sujeitar à apreciação dos seus pares.
Quando tudo apontava que Manuela ia ser cabeça-de-cartaz, começaram a aparecer outros artistas a querer tocar neste festival. Um deles prometia trazer para Lisboa uma versão renovada do bailinho da Madeira e apregoava até esquecer o passado e juntar-se mesmo à banda do Parlamento nacional, a quem um dia desejou que se fossem todos f….
Desistiu! Sabes como é, amuos de artista. Quando estavam a definir quem ia ficar sob os holofotes, Lopes recordou que não havia lugar para todos, Alberto João Jardim sentiu que não tinha espectadores suficientes para ascender ao estrelato e foi carpir mágoas para o camarote lá da ilha, onde reina, diz e faz o que lhe dá na gana e ainda tem um exército de fãs sempre pronto a satisfazer-lhe todos os caprichos de verdadeiro artista.
Quando Lopes viu o concorrente lá no meio do mar, decidiu-se a reconhecer que afinal queria actuar. Deve ter pensado: foi ao ar, perdeu o lugar. E começou já a ensaiar as músicas antigas, quando teve o palco todo só para ele e acabou vaiado pelo público, depois do experiente “road-manager” do espectáculo, Jorge Sampaio, ter mandado abaixo o contrato com o conhecido artista a quem os amigos tratam carinhosamente por Calimero. Os críticos musicais esperam que a actuação tenha um registo pimba.
Há uma terceira atracção do festival que vai contra os seus pares. Chama-se Pedro Passos Coelho, tem voz de tenor e quer fazer crer à assistência que dali só virá o “bello canto”, deixa escapar que tem uma veia de erudito e leva o espectáculo muito a sério. Promete uma actuação distinta dos concorrentes, mas só no fim se vai perceber do que é capaz este artista.
Há mais intérpretes que já conseguiram garantir que vão ter o nome impresso no cartaz: Patinha Antão e Neto da Silva. Mas estes, Fernando, são mesmo para fazer número.
Como vês, se aí tens três festivais de fim-de-semana, aqui vamos desfrutar de um único durante mais de um mês. Outra dimensão artística, como terás que concordar. Ah, e quando os espectadores estiverem exaustos de tanto aplaudir as suas estrelas preferidas, também não deverá faltar com que se refrescarem. Estão prometidos baldes de água fria para todos.

Um musical abraço.

António Martins Neves


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