Regrado Fernando,
vou terminar hoje um daqueles ciclos de “descasca pessegueiro”, como lhe chamas, mas há coisas que quero que saibas, com o devido destaque, que se passam no teu país. Serei breve, mas não posso deixar de te falar das aquisições de carros no Ministério da Justiça, “perfeitamente enquadrado” no regime de cinto apertado

decretado pelo Governo ao país.
Narram as notícias que custaram 176 mil euros, livres do imposto automóvel que o comum dos mortais (sem estatuto governamental) paga, mas foram comprados no “estrito cumprimento do enquadramento legal” sobre a matéria, de acordo com um comunicado do Ministério em reacção à notícia do Diário de Notícias que tornou público o caso.
Gostaria de te dizer que discordo, em absoluto, desta aquisição de viaturas de luxo (embora não sejam topo de gama) e de outras que, eventualmente, possam ter sido feitas mas que não tenham sido noticiadas na imprensa. Os utilizadores delas não andariam a pé e teriam, seguramente, carros decentes para se deslocarem sem comprarem as “bombas”. Depois, tais máquinas foram adquiridas com dinheiro do erário público, que é alimentado pelos impostos dos contribuintes a quem este Governo não tem deixado de pedir sacrifícios…O Ministério da Justiça diz que é tudo legal. Será, mas falta-lhes autoridade moral para o fazer. Quem pede sacrifícios tem que dar o exemplo.
Em linguagem livre e popular é algo como dizer “dá cá o teu que é para eu andar bem montado”. Este é só um exemplo, insisto. Dizia o mesmo jornal, embora citando fontes não identificadas, que há magistrados do Ministério Público que fazem diligências “à boleia” nas viaturas da Polícia Judiciária. Cheira-me que não é este o caminho a seguir para que a Justiça funcione no país. Lembra-me algo parecido com o patrão que reduz os ordenados dos empregados com a justificação de que quer evitar o encerramento da empresa e na semana seguinte aparece ao volante de uma carrão novo. Não basta ser sério, é preciso parecer também, Fernando. E em política, o que parece é, dizem os especialistas na matéria. E a mim parece-me muito mal…

Um simples mas honrado abraço.
António Martins Neves


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