Automobilizado Fernando,
não me vais ver com a cara pintada de verde, nem amarelo nem outra cor qualquer quando nos reencontrarmos. Mas há quem esteja a pensar em coisas do género e a querer carimbar as pessoas de acordo com os seus comportamentos. Irei recusar-me a isso, portanto a maior diferença que podes encontrar é mais umas rugas ou uns cabelos brancos quando me puseres a vista em cima.
 O facto é que uma empresa privada propôs ao Governo que obrigue os automobilistas a exibir um selo de acordo com o seu “passado” ao volante”. Quem nunca causou acidentes nos últimos anos cola um selo verde no carro, quem originou algum “sinistro” na estrada é obrigado a afixar o amarelo e quem se “espetou” várias vezes terá que mostrar um vermelho ao mundo.

Primeiro disparate que sobressai da proposta: o selo que revela o “comportamento” de um condutor deve ser colocado na viatura? E seu eu tiver dois carros e só tiver tido acidentes com um? E se for profissional e mudar de carro frequentemente? Em que carro afixo o símbolo da “vergonha” ou do “regozijo”?
Ainda se fosse pintar a cara dos condutores, vá que não vá! Quem tivesse carta tinha que ir ao castigo. Nunca teve acidentes? Secção verde. Umas pistoladas e está reconhecido o mérito. Os desastrados andariam pelas ruas de rosto vermelho, já que não conseguiam estar o tempo todo corados de vergonha por serem uns desastres agarrados ao volante, e por aí fora.
Isto tudo não faria sentido nenhum nem que Portugal tivesse como único problema os acidentes (e respectivas vítimas) nas estradas. E se a culpa fosse só do mau comportamento dos condutores, indiscutível, mas que não está só neste problema com que nos confrontamos, embora tenhamos melhorado muito, como as estatísticas provam nos últimos anos.
Acho eu, Fernando, que não se pode assacar apenas ao condutor o facto de não ter a noção da responsabilidade do que é pegar no volante de um carro e atirar-se pela via pública fora. Há as regras impostas ao ensino da condução, há as escolas, o  estado das estradas e auto-estradas tantas vezes em obras e…claro, o comportamento de quem se monta em quatro rodas e se esquece que não anda só no mundo.
Mas, e ser “nabo” e inconsciente com um automóvel é o pior do mundo? Porque pode matar? Bom…E se eu for comprar uma espingarda e achar que passo a ser uma espécie de xerife não merecerei também um selo de cor distinta? E se descarregar os esgotos de umas pocilgas num rio e provocar um crime ambiental? E se tiver dívidas ao fisco e à segurança social? São falhas menores?? Se tomar banho com a bandeira vermelha serei um bom “veraneante”? E se fumar?  E se beber? E se não votar? E se….? Se é para haver justiça, teremos que criar selos para estas situações todas. E mais para os governantes que as venham a impôr. Promessa incumprida, selo vermelho na lapela, sem apelo!
Imagina o que aconteceria: algo parecido com os antigos países do Bloco de Leste no tempo do “socialismo” em que os “dirigentes” e altas patentes militares quase tinham que alargar o peito par expor tantas condecorações…Aqui seria ao contrário: cada qual com a frontaria cheia de penalizações!
Isto recorda-me que até há alguns anos recentes, um militar sujeito ao serviço militar obrigatório, que fosse condutor, seria sempre considerado culpado se a viatura que conduzisse fosse abalroada, mesmo que estivesse regularmente estacionada e o motorista a milhas…Selo vermelho sempre!
Isto visto assim de uma forma crua parece de gente que tem falta de coragem para reimplantar a pena de morte, ó Fernando…E, claro, desculpar um sistema judicial que parece nunca ninguém ir pôr a funcionar minimamente. Lembraste daquele ministro da Economia que foi apanhado pelas autoridades num carro a uma velocidade quase supersónica? Pois fica descansado que nunca vais ver um governante com a cara pintada de preto.

Um justo, mas descolorido abraço.

António Martins Neves


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