Honesto Fernando,
esse retrato do estatuto especial de Cabo Verde em relação à União Europeia faz-me muito lembrar o que aconteceu em Portugal depois da adesão à então CEE, em 1986. Dinheiro para cá, que aqui no bolso é que ele me faz falta. O resto foram (e são) conversas. Aqui de homem para homem, tu sabes bem que esta coisa da União Europeia (UE), para a maioria das pessoas, foi assim uma espécie de telha donde caía dinheiro.

Quais responsabilidades? Dinheirame com fartura, que os alemães, franceses e ingleses é que o possuem e podem mandar para cá. Grande oportunidade para desenvolver o país? Desenvolver? Então isso não são carros topo de gama e apartamentos no Algarve? Os índices medidos na rua e no café são esses. O Instituto Nacional de Estatística trabalha para os académicos. O que é que este  país precisava? De auto-estradas. Para chegar depressa à praia para apnhar escaldões e beber imperiais, embora pagando uma fortuna pela viagem, apesar de as pistas serem construídas com fundos comunitários também. Mas quem não lhe custa a ganhar, não lhe custa a gastar. Há lá melhor assunto de conversa do que falar do último investimento feito num T3 com vista sobre o mar usando o subsídio pedido para modernizar uma vacaria,  equipar a cozinha de um restaurante ou formar uma empresa de import-export? Ná!
Investir em Educação? Para quê? Então e a escola da vida que formou gerações e gerações deste brilhante povo é passada para terceiro plano assim com a aproximação aos europeus do Norte? Qué isso mâ? Um homem que aprende a desenrascar-se desde que tirou os coeiros precisa lá de escola. Fazer a assinatura e andou. Até a questão da carta para andar com o BMW ou o Mercedes se resolve sem escola. Basta saber da pessoa certa, como em quase tudo aqui. E muitos milhares de portugueses, descobriram essas pessoas certas. Vi analfabetos  ao volante de jipes Mercedes. Queres melhor indicador de desenvolvimento??? A taxa de carros de luxo é superior à que se vê em qualquer país da Europa e não pára de aumentar. A concentração de Ferraris nos distritos de Braga e do Porto deviam deixar-nos da cor daquelas máquinas. Mas quem pode, pode. O resto deve ser dor de cotovelo. Trabalho infantil ali ao lado? Azar! Os homens das estatísticas vêm agora falar em dois milhões de pobres, tesos, quase sem nada, hipotecados, à beira da miséria absoluta. Mais uma maquinação de sociólogos e afins. Se posso ter um Audi e fazer virar as cabeças quando passo, que mal tem almoçar um iogurte? Nós até somos muito desenrascados. Conseguimos mais uns dinheiros iludindo o fisco e fugindo aos impostos e, – já me esquecia – arranjámos umas dezenas de empregos para uns deputados que ganham principescamente por irem de vez em quando a Bruxelas e Estrasburgo fazer não se vê bem o quê. Que também deram uns belos empregos nos seus quentinhos gabinetes a quem quiseram…
Comparações? Não vás por aí, Fernando! Espanhóis, irlandeses, malta que alinhava connosco de fundilhos rotos e agora vivem decentemente?? Não te preocupes! Nós emigramos para lá e temos o problema resolvido. Pena é que a massa vá parar de chegar dentro de anos. Depois se verá e os que vierem atrás que fechem a porta. Quem soube, safou-se, quem foi papalvo, olha…paciência! Diz aí aos teus amigos  caboverdianos que aqui foi assim. Vieram carradas e carradas e carradas de milhões de contos primeiro, e de euros depois, e não passámos da tal cepa torta de que falas. Mas fica para a história que os políticos que permitiram esta bagunçada dizem que estamos desenvolvidos. Se aí também quiserem, a gente vai-lhes dar um curso de formação de como “sacar” dinheiro à União Europeia. Se nos derem algum, claro. Somos especialistas na matéria. Quando vier a conta? Alguém há-de pagar, como se diz quando se manda vir na taberna…

Um abraço sem sombra de subsídio.

António Martins Neves