Tradicional Fernando,
vem uma família da Suiça mostrar como se chega ao alto da montanha e depois até água lhe recusam. Acabei de ler no jornal e não consigo esconder o desânimo por cá se tratar de forma tão despudorada quem investe no futuro. Meta-se um grupo sem rosto a fazer projectos turísticos em zonas protegidas ou outros capitalistas sem escrúpulos a criar bancos para enriquecer alguns, que o Estado português cá está para os “ajudar”. Para uns arranjam-se facilmente uns tais de PIN (projectos de interesse nacional), enquanto aos outros não faltará dinheiro para cobrir as suas gestões danosas. Já a alguém que investe trabalho e dinheiro ao ponto de conquistar para Portugal um título de melhor azeite do mundo recusa-se água para a herdade, mesmo que seja de um “mar” como a barragem do Alqueva.
Vem hoje no Público e lê-se como a história do porco a andar de bicicleta. Uma família suiça assentou arraiais perto de Serpa, no Baixo Alentejo, onde comprou uma herdade onde há oliveiras que “nasceram” antes do poeta Luís de Camões. Isso mesmo: árvores com mais de 500 anos. E são essas ditas que produzem umas azeitonas miúdas com que a tal família foi a Nuremberga, na Alemanha, buscar o primeiro lugar entre os 78 concorrentes que disputaram o título de melhor azeite biológico do mundo, em Fevereiro passado. A história do jornal vem de pernas para o ar e só no fim da reportagem se fica com o travo amargo da injustiça, como quem nos dá zurrapa que nos destrói a garganta e os fígados, em vez do mais puro fio de azeite que nos devolve o brilho do sol alentejano que consumiu. Os funcionários públicos que gerem a água da barragem do Alqueva, a tal de que te falei, com 90 quilómetros de comprimento, que partilha a mesma planície com as tais oliveiras em cuja sombra Camões poderia ter escrito um dos seus arrebatados sonetos, negaram água para rega na herdade da Risca Grande, assim se chama aquele chão. Motivo: a terra é pouco produtiva!
Assim de rajada lembro-me de apoios estatais e “facilidades” dados a projectos turísticos privados rentabilizados à custa do património colectivo que é o nosso magnífico litoral; das muitas centenas de milhões de euros suportados com os nossos impostos para “salvar” um banco falido devido a gestão criminosa debaixo do nariz do polícia; dos centos de sobreiros (património florestal nacional) deitados a baixo perto de Setúbal para construir (mais) uma urbanização. Agora, dando de caras com este “exemplo”, querem que acreditemos no quê Fernando? Então vieram os suiços fazer o que nós não conseguimos, dar riqueza e nome ao país com um bem sustentável, que é só dos mais antigos e mais saudáveis alimentos conhecidos no mundo, renovável, que contribui para a manutenção dos ecossistemas e aponta um caminho seguro para livrar da penúria uma região a quem todos os poderes viraram as costas, e o Estado, os nossos governantes ou os seus subordinados, até água lhe recusam? Eu não acredito…

Um abraço bem temperado.

António Martins Neves


5 Responses to “Eu não acredito…”

  1. 1 gina

    Pois, há um cadito de falta de dados nessa noticia,as arvores têm mais de 500 anos e agora é que necessitam de agua do alqueva, o azeite que produzem é melhor do que os das outras arvores que ficam naquela zona?nomeadamente as oliveiras da zona de Moura.
    É que esta tudo misturado,Camões, projectos turisticos, critica politica, sobreiros e oliveiras.
    Não era mais facil dizer que as oliveiras necessitam de agua porque…..e questionar que projectos foram apresentados e rebater e recorrer do despacho que indeferiu o pedido?
    É que meter tudo no mesmo saco não me ,parece a melhor forma de defender as oliveiras do tempo de camões ,
    e parece que só agora graças á inteligência e grande visão duns suiços, que tão fartissimos de fazer azeite e vieram descobrir o fim do arco iris no alentejo é que os meios de comunicação chegam á conclusão que temos bom azeite.
    eu por acaso já o sabia, e já agora uma informação totalmente isenta, o alentejo na zona de moura e no parral, tem optima qualidade, assim como o de bragança e na beira.
    Por acaso algum dele já n é produzido porque não ha gente que apanhe as azeitonas.

  2. 2 António Martins Neves

    Vamos por partes: não escrevi nenhuma notícia, mas redigi um comentário com base num texto publicado no jornal Público. Quem confunde é quem não quer (ou não consegue) ler o que lá está escrito, de forma clara. Com maíusculas, pontos, vírgulas, tudo. O que se conclui do que lá se diz não é que foi recusada água às oliveiras de 500 anos, mas antes à propriedade onde essas árvores existem e com cujas azeitonas foi feito um azeite biológico que ganhou o primeiro prémio no mais conceituado certame do género realizado em Fevereiro, em Nuremberga, na Alemanha. Tudo de acordo com o que vem no jornal Público. Se isso não é importante e é até irrelevante, é com quem o afirma. Eu acho escandaloso. E não tenho nada a ver com o caso. A minha declaração de interesses na matéria não vai além de ser português, alentejano e não ter uma oliveira. Preocupo-me é com o meu país…Ah, e sei há muito que o azeite de Moura, Santiago do Cacém ou Alfândega da Fé ou Mirandela é bom. O que nada tem a ver com o que está em questão. Não querer ver isso é que me parece mau. Paciência…
    António Martins Neves

  3. 3 gina

    que fixe, já estamos na área dos comentarios á noticia inicial, que é uma frequência nos dias de hoje.Já tou um cadito mais esclarecida, afinal a agua não é pras oliveiritas centenárias, mas para a propriedade onde elas estão implantadas.Será que isso quer dizer que os suiços habituados aos campos verdejantes da sua terra de origem querem aproveitar o terreno pra implantar outras culturas alem do azeite, assim tipo uma paisagem suiça com as vaquinhas a pastar, quem sabe ainda vamos ter uma montanhinha alpina a sul.
    quanto ao entender ou não o que é escrito, é normal que nem toda a gente consiga entender os iluminados, mas pode ser que tenha tambem a ver com o facto de ter de apreender tanta mistura de ideias em tão pouco texto lol.embora a ideia inicial do bota-abaixo , essa releve sempre.
    afinal é conhecido o grau de ileteracia do nosso pais, por isso considere-me justificada dos eventuais erros e falta de pontuação, até porque sempre embirrei com os acentos e com o novo acordo ortografico isso agora não tem importância nenhuma

  4. 4 JVA

    Ora, se me permitem:
    O sequeiro e o regadio. O sequeiro não é o deserto do Saara. Ao contrário do António Martins Neves, eu tenho cá umas oliveiras herdadas e se não chove, a azeitona não incha. Não há cá azeite sem água. Ainda adianto que além das oliveiritas, meu avô teve, durante anos, um lagar, que estafa feito em cima de uma ribeira porque não há forma de fazer azeite sem água. E dispenso aqui de recordar como se fazia o azeite.
    Por isso, os suiços, ou de Moura ou os de Romeu têm todo o direito a pedir água, se lá ao lado tiverem albufeira para isso.
    O que não se percebe é porque foi negada a água. Se têm lucro e prémios com o azeite, não há-de ser para arrancar o olival. Ora, há que saber o porquê do “não”.
    Mas uma vez que o Alqueva está atrasado e ainda não há um único plano global para o regadio, o suporte o sequeiro, ainda que mal amanhado, parece-me boa utilização para a água, por enquanto.
    Quanto a ninguém apanhar a azeitona, pois se levam 4/5 pela apanha, pois se não há agricultura cooperativa, pois se a reforma agrária, sem qualquer ideologia, a reforma mesmo, não se fez, que faremos quando tudo azeita?

  5. 5 Carlos F. Menz

    Como uma notícia e um comentário podem render panos para manga! E como os ânimos podem ficar exaltados! Na verdade vejo com total naturalidade inovações em todos os setores da sociedade, tanto sociais quanto tecnológicos. Talvez pela maior liberalidade que vivenciamos aqui no Brasil. Já por duas vezes visitei Portugal e considero este país e este povo como meus, apesar das diferentes origens étnicas e históricas. Tentando desenvolver um projeto de plantação de oliveiras por aqui tenho navegado (navegar é preciso…) pela internet à procura de subsídios. E deparei-me com este “Eu não acredito…” do Antônio Martins. E devo dizer que também… Não acredito! Nega-se água. Água! A quem produz e inova. Nega-se credibilidade a quem só procura a excelência e até o bem comum. Burocracia e politicagem. Assim como aqui, também aí. Que tristeza. Tristes procedimentos, tristes heranças dos dois lados do Atlântico. E ao desabafo e inconformidade de Antônio Martins junto a minha surpresa e incompreensão com o tom irônico de Gina, algo como, incômodo pelo sucesso alheio?… Ou algum tipo de xenofobia tardia, em tempos de UE e globalização… Portugal tem muito a ensinar ao mundo em termos de oliveiras e azeite. Assim como Espanha, Itália e Grécia. Mas fixo me aí, por motivos evidentes. Porém oh, Gina, às vezes também podemos aprender, um tiquinho que seja, para melhorar o que já é bom. Abraços a todos.