Eu é que sou a autoridade!

Livre Fernando,

um debate que continua por realizar de uma forma séria aqui é sobre o desempenho das forças de segurança. Elas queixam-se dos cidadãos e dos juizes que soltam os bandidos, as pessoas de serem maltratadas pela polícia, tudo indícios de uma sociedade à toa. E pior do que não se fazer o debate, nunca nenhum governo tomou medidas para resolver esse problema grave que as pessoas sentem no dia-a-dia. Um polícia saído da escola onde aprende a ser agente da autoridade ganha 700 euros por mês, tem que dormir muitas vezes em camaratas ou quartos alugados e tem a família a centenas de quilómetros. Opta pela farda tantas vezes para fugir ao desemprego. Mas com tudo isto, ministro da respectiva tutela diz que conseguimos ser dos países mais seguros do mundo…Milagre? Não vejo outra explicação…

O papel das forças de segurança é fundamental, deve ser equilibrado e não extravasar os limites que as tornam indispensáveis numa sociedade moderna. São pagas para garantir o cumprimento da lei, mas não a representam. Isso era antes do 25 de Abril, quando uma farda significava querer e poder.

Tenho ainda algumas recordações dessa altura, quando os guardas republicanos andavam a pé pelos campos. Perguntavam o que queriam às pessoas, tinham uma missão controleira. Lembro-me de uma vez ter visto dois sentados à volta de uma fogueira numa pedreira desactivada ao romper do dia. Explicaram-me que deviam ter pernoitado por ali. Apurei depois que ser guarda nessa altura implicava pouco. Até podiam ser (e eram muitos) analfabetos. Assumiam a postura visível de guardiões da ditadura. A PIDE fazia o resto do trabalho sujo. É por isso que a GNR ainda por estes dias não conseguiu alterar a imagem que criou no Alentejo nessa altura. Como é que “exibir” pessoas pelo meio das localidades, algemadas como grandes criminosos, por terem sido apanhadas a recolher bolotas destinadas a apodrecer que haviam caído de uma azinheira de um grande proprietário poderia criar boa imagem daquelas criaturas de farda pardacenta, Fernando? Era para comer, muitas vezes, ou para dar a um porco, que iria dar a única carne que se consumiria lá em casa o ano inteiro…

Passaram mais de 30 anos sobre esses tempos e muitas mudanças houve. Mas não sei se a totalidade das desejadas. Verdade é que as pessoas ficam bem impressionadas quando ouvem os oficiais da GNR destacados em Timor-Leste a falar do que fizeram, do que ouviram, e das recompensas morais que receberam pelo seu desempenho, ao lado dos militares australianos ou neozelandezas e de como a população agradece e distingue a sua postura.

Só que lá a realidade é diferente e os guardas também. Mandam de cá a elite, naturalmente. Os mais bem preparados física e psicologicamente. Cá, ficam os ditos “regulares”. E como à GNR cabe patrulhar os meios rurais e as cidades de menor dimensão, aquele toque de ruralidade de que te falava ainda parece não se ter desvanecido completamente. Contam-me, porque a idade era tão pouca que não me recordo, que na minha terra havia um oficial sub-alterno da GNR, no tempo da ditadura, que alimentava um ódio visceral por pessoas de etnia cigana, a quem espancava pela simples razão de existirem. Num meio onde a população lidava mal com as diferenças de raças, credos e culturas, chamavam-lhe mesmo o “alferes malino”. Relatos indicam que perseguia os líderes da comunidade cigana e, montado no cavalo, vergastava e destruía barracas onde apanhasse alguma daquelas pessoas, de preferência ainda a dormir, ao alvorecer. “Levanta-te Fufa, que vem aí o alferes malino”, ouvia muitas vezes um personagem famoso e alvo apetecido da chibata do algoz fardado.

Dirás tu que os tempos mudaram. E é verdade. Mas será que mais de 30 anos chegaram para adaptar o relacionamento das forças de segurança com as populações. Contam-me que um jovem tenente da GNR recentemente destacado para dirigir o posto de uma vila anunciou que ia por aquela “gente na ordem”. Não havia nada lá para fiscalizar, a não ser uns casos de droga, uns aceleras ruidosos ao fim-de-semana e a prevenção de assaltos a estabelecimentos que passaram a fazer parte do quotidiano. Mas pensas que era a isso que se referia? Não. Era ao estacionamento, imagina, e, claro, ao consumo de álcool. Não tenho forma de o provar, mas disseram-me que mudou de ideias quando num sábado apanhou por três vezes o presidente da Câmara com uma taxa de alcoolemia bem acima do permitido. Deixou cair a fúria justiceira…

Depois há aquela postura de que os polícias têm que ser respeitados, sem se saberem dar ao respeito. Fazem o que depois criticam e querem penalizar nos outros e não se sabem integrar nas comunidades.

Já ouvi falar a gente com responsabilidade sindical na PSP que falta o “respeitinho” que “antes” havia pela polícia. Serão saudades de quando o cassetete tinha sempre razão e a regra era come e cala? Seja lá porque for, o certo é que nem neste aspecto as coisas correm a desejo. Os polícias queixam-se do Governo, o povo queixa-se das autoridades e casa onde não há pão, passe a vulgaridade do ditado, todos reclamam e ninguém tem razão.

Um pacífico e respeitoso abraço.

António Martins Neves


1 Response to “Eu é que sou a autoridade!”

  1. 1 Marcio

    Muita sorte de Portugal na minha opinião. A realidade do Brasil é diferente aqui um policia pode começar ganhando o equivalente a 400 euros e acaba por trabalhar em outros lugares para completar a renda, com isso perdem todos policia e sociedade.

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