Esmurra-me, meu amigo!
Publicado por António Martins Neves 24 Outubro 2007 em Portugal.Baralhado Fernando,
se um destes dias te chegar aí que o reitor do santuário de Fátima apareceu de olhos negros e face esmurrada, não digas que não te avisei. O homem pôs-se a jeito e, levadas a peito, as suas palavras não o deixam a salvo de lavar uns sopapos dos…amigos. Passo a explicar-te: monsenhor Luciano Guerra deu uma entrevistas a uma revista que acompanha o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias aos sábados onde se manifesta tolerante com um homem que bata na mulher de três em três anos. Todas as semanas é que não. Diz que um intervalo assim espaçado não é motivo para divórcio, muito menos se o homem “amar” a mulher. “Duvidas que eu te amo?, então toma lá um soquete ó minha ingrata”, parece-me já ouvir de gente que o prelado deve conhecer.
Diz ele que se estivesse no lugar da mulher agredida, não fazia nada. Ficava com elas, as porradas, e enobrecia-se a pensar que o vergastador a amava muito, pelo que um enxerto de pancada de três em três anos pareceria até fazer sentido. Todas as semanas é que não, acha o responsável da Igreja Católica.
Mas como eclesiástico, ele sabe muito bem que não se pode colocar no lugar de ninguém que se tenha casado. Nem lhe é reconhecida autoridade de facto para falar de uma situação que lhe está vedada. O que ele tinha obrigação de saber é que a violência é crime, seja todos os dias, à semana, ao mês, ao ano, de três em três ou quando fôr…Mas, claro, ele que nunca se casará, arrisco eu, acha que espancamentos espaçados não são razão para acabar com um matrimónio…com amor. Carnal, neste caso.
Só que se não é neste caso, será nos outros? Imagina, Fernando, que eu era amigo do monsenhor que governa o Santuário, mas amigo do peito, daqueles em que nada nem ninguém pode abalar a confiança mútua entre duas pessoas. Eu irritava-me com ele por causa da caixa de esmolas que há lá em Fátima, onde gente carenciada, da que a igreja diz ajudar, deita molhos de notas que eu acho lhe farão falta para comer, como já observei longamente (em trabalho). E que o monsenhor me responde que até é contra isso, mas as pessoas dão porque querem e eu contrapunha, ressalvando sempre ser muito seu amigo, que então deviam tirar de lá a caixa das esmolas. Ele dizia que isso não podia fazer e eu, amicíssimo dele, enfiava-lhe uns pares de carolos bem aviados, enquanto lhe gritava que o estimava muito. Ele ficava todo negro, eu mostrava-lhe a entrevista que ele dera e ainda recebia uma palmada nas costas. Bem dadas, acharia ele, com certeza! Eu seria violento com os punhos, como foi com as palavras a autora de uma crónica sobre o tema que gostei de ler. Mas ele tinha que se aguentar, porque quis justificar o injustificável. Nem como homem nem como padre consegue reunir argumentos para se safar. Ah, e claro, como sempre na Igreja Católica nem se coloca a hipótese dos murros serem dados pela mulher no marido. Esquecimento, pela certa.
Por isso já sabes, Fernando: quando vires um padre esmurrado, não te admires, deve ter sido um grande amigo, alguém que lhe quer muito. Mas não te preocupes se ele só as levar de três em três anos. Nenhum prelado renegará uma relação de amizade por causa de umas pêras bem aplicadas de tempos a tempos!
Um pacífico abraço.
António Martins Neves.



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